Sabrina Noivas 81 - Bride By Day

A bela e a fera? Com aquela cicatriz do lado direito do rosto, o milionrio grego Perseu Kostopoulos parecia misterioso e ameaador, portanto, no era o que se podia chamar de um prncipe encantado tpico. Entretanto, Samantha no conseguia deixar de consider-lo irresistvel, principalmente depois que ele se ofereceu para realizar trs de seus maiores desejos. Tudo o que tinha de fazer em troca era se tornar sua esposa temporria... Detalhe: aquele seria um casamento puramente platnico. Samantha seria sua esposa apenas durante o dia, na frente dos outros. Mas o que a atrara para aquele compromisso no era a realizao de seus desejos, e sim as emoes intensas que Perseu despertava em seu corpo e alma. Se ao menos ele entendesse isso!

Digitalizao e correo: Nina

Dados da Edio: Editora Nova Cultural 1998
Publicao original: 1998. Estado da Obra: Corrigida
Gnero: Romance histrico contemporneo
Srie Whirlwind Weddings
Autor	Ttulo	Ebooks	Date
Allison, Heather	Marry in Haste
Sabrina 1076 - Perfeita Unio	Jan-1998

Dale, Ruth Jean	Dash to the Altar
	Feb-1998

Allan, Jeanne	Rachel and the Tough Guy
	Mar-1998

Leclaire, Day	The Twenty-Four Hour Bride
	Mar-1998

Steele, Jessica	Married in a Moment
	Apr-1998

Rutland, Eva	The Million-Dollar Marriage
	Aug-1998

Winters, Rebecca	Bride by Day
Sabrina Noivas 81 - Trs Desejos, Uma Paixo	Sep-1998

Denison, Janelle	Ready-Made Bride
	Dec-1998



 









CAPITULO I

	Sou Sam Telford, do Escritrio 'Manhattan Cleaners. Meu chefe disse que pediram que eu viesse at aqui.
Samantha, que preferia ser chamada pela abreviatura de seu nome de batismo, tinha sido forada a correr de seu apartamento at ali, no meio de uma tempestade tpica do ms de maio. Estava encharcada at os ossos e, por isso, nem ousara se sentar nas cadeiras com estofados em veludo ocre, que enfeitavam a sala de espera do escritrio novaiorquino.
Diante das palavras firmes, a elegante secretria de meia-idade olhou para ela com um leve desdm.
	Foi voc quem limpou este escritrio na noite passada?
	Sim  confirmou, franzindo o cenho.
	Est atrasada para o encontro que solicitamos, deveria ter chegado aqui antes das duas horas.
	Eu estava em aula pela manh e meu chefe s conseguiu falar comigo quando fui para casa, depois do meio-dia  explicou, antes de inquirir:  Tem alguma coisa errada com meu trabalho?
	Pode-se dizer que sim  veio a resposta crtica.
 Por favor, h... espere um minuto  ordenou a mulher e, em seguida, desapareceu atrs das portas duplas de vidro que levavam  sala da presidncia.
Sam mordeu o lbio inferior. No podia se dar ao luxo de ter problemas quela altura dos acontecimentos, pois o emprego de faxineira era sua nica fonte de renda. Suas reservas financeiras estavam chegando ao fim e a salvao seria o prximo contracheque. Alm do qu, preferia morrer a ter de pedir ajuda a seu pai, um pintor de reputao internacional, que abandonara a me de Sam antes de a filha nascer. A ltima notcia que tivera dele era que estava morando na Siclia, na companhia de uma de suas amantes.
Sam cerrou os punhos para conter a indignao que sentia. Algum dia, quando tivesse feito sucesso em sua carreira de artista plstica, ela procuraria Jules Gre-gory e colocaria as coisas em pratos limpos. Sim, ficava eufrica s de imaginar que poderia chegar at o pai e mostrar-lhe que fizera sucesso mesmo sem sua ajuda.  Srta. Telford?  a secretria chamou-a pela segunda vez.  O sr. Kostopoulos ir receb-la agora, pode entrar.
"O todo-poderoso presidente da empresa?!", Sam repetiu em pensamento. Tal notcia s serviu para deix-la ainda mais nervosa, afinal, Kostopoulos era o dono da Kostopoulos Shipping and Export, uma empresa que ocupava um luxuoso edifcio, no Upper West Side em Nova York.
Todavia, sabia que no tinha outra alternativa a no ser seguir direto para o local indicado pela secretria mal-humorada.
Um leve tremor a percorreu quando passou pela porta dupla e entrou no aposento que limpara na noite anterior. Para piorar, seu tnis, encharcado por causa da chuva, produzia um som estranho conforme pisava no mrmore branco.
Automaticamente, seus olhos se voltaram para a parede. Para seu alvio, o Picasso ainda estava l, em meio a algumas pinturas  leo e grafites modernos.
Por um momento, Sam temera que algum tivesse roubado as obras de arte durante  noite. Claro que estas obras deveriam estar em museus, como o D'Orsay, em Paris, onde todos poderiam apreci-las, mas, em vez disso, estavam ali, fazendo parte de uma coleo particular e brindando apenas uns poucos privilegiados com sua beleza.
A pintura simples, porm charmosa, de um par de mos segurando um buque de flores deveria ser um original, embora Sam reconhecesse que se tratava de uma verso desconhecida da Petit Fleurs, obra-prima de Picasso.
Ela calculava que Kostopoulos tivesse pago uma verdadeira fortuna para obter tal tesouro. Muito provavelmente, deveria ter havido uma negociao privada entre a famlia Picasso e o magnata grego.
Claro que,  luz do dia, os charmosos mveis helnicos da sala da presidncia tambm mereciam uma segunda olhadela, porm, assim que deixou de apreciar os quadros, o olhar curioso de Samantha recaiu sobre a imponente figura masculina que dominava o ambiente.
Perseu Kostopoulos tinha a estrutura fsica das esttuas clssicas gregas e Sam no conseguia evitar de encar-lo. Definitivamente, ali estava um homem magnfico!
O semblante srio e tenso parecia refletir uma fria contida e Samantha estremeceu s de pensar que isso poderia ter alguma coisa a ver com ela.
Kostopoulos estava parado ao lado da janela panormica, totalmente alheio ao luxo que o circundava. O perfil reto e clssico estava em evidncia enquanto o todo-poderoso empresrio fitava um ponto que s ele podia ver.
Vivendo num mundo voltado para arte como vivia, Sam ficou imediatamente intrigada com os cabelos negros, mais longos do que o habitual at mesmo para um americano, que dir para um grego! Tinha-se a impresso que os caracis cor de bano jamais permitiriam que os raios de sol penetrassem no emaranhado de fios, de to escuros que eram. Por alguma estranha razo, Sam imaginou que aquele era o tipo de escurido reinante em nosso planeta antes que Deus criasse a luz e libertasse a Terra das trevas.
Mas sua observao detalhada no parou a. As feies aquilinas e as sobrancelhas, cujo desenho lembrava as asas de uma guia em pleno vo, somavam-se s outras caractersticas impressionantes de Perseu Kostopoulos. Contudo, na mente de Sam, era a cicatriz misteriosa, que acompanhava toda a linha do maxilar direito, o grande destaque do conjunto. A cicatriz deveria ser um velho ferimento, mas sobressaa bastante por que, sem sombra de dvida, Perseu era um desses homens que precisavam se barbear todos os dias.
O mais engraado era que, embora vestido num elegante terno acinzentado, havia algo de primitivo nele e Samantha concluiu que qualquer um que o visse pela primeira vez ficaria intrigado com a face mscula e inesquecvel. Sim, exatamente o tipo de face que ela gostaria de esculpir, se a escultura fosse seu ponto forte.
 Entre logo, srta. Telford!  veio a ordem imperiosa. De repente, Samantha tornou-se o centro de sua ateno. Sem se fazer de rogados, os olhos cor de jabuticaba a inspecionaram de alto a baixo.
Apesar de ter quase um metro e setenta, Sam sentiu-se pequena e frgil perto da altura descomunal de Kostopoulos. Ela estava usando cala e camisa jeans e, ao correr os olhos por suas curvas femininas, o grego pressionou levemente os lbios, num sinal de reprovao.
"Talvez fossem os seus cabelos que o tivessem aborrecido!", Sam concluiu. Naquela manh, tinha estado to atrasada para terminar um trabalho de arte que precisava entregar na Universidade, que nem tivera tempo de arrum-lo direito. Assim, limitara-se a prend-lo num rabo-de-cavalo e depois diminura o comprimento dos longos fios dourados dobrando-os no que parecia uma espcie de n.
	Eu j entrei, senhor!  Fez questo de dizer, pois era bvio que ele estava tentando intimid-la.
A tenso impregnava a atmosfera da sala.
	Minha secretria disse que foi voc quem limpou este escritrio na noite passada.  Ele falava um ingls impecvel e tinha a voz mais profunda que Sam j ouvira. Ainda assim, em algumas notas, a melodia do grego dava um toque atraente s palavras e frases.
"Encare os fatos, Sam, esse  o homem mais fascinante que j conheceu em toda sua vida!", pensou, antes de responder lacnica:
	Sim.
	E o que aconteceu com o rapaz que costuma fazer este servio normalmente?  Kostopoulos insistiu em saber.
	Jack foi para casa porque no estava se sentindo bem e pediu que terminasse o servio em seu lugar.
Ele continuou parado onde estava, com os ps levemente afastados um do outro e as mos mergulhadas no bolso da cala de pregas clssicas.
Com sua imaginao frtil, Samantha podia v-lo como Zeus, o Deus grego, dando ordens aos mortais de seu trono no Olimpo.
Voltando  realidade, ela concluiu que o dono da companhia de exportao deveria estar mais prximo dos quarenta do que dos trinta anos, embora o considerasse jovem para dirigir um imprio comercial to grande.
Se os rumores que corriam pela cidade e pelo escritrio fossem verdadeiros, o todo-poderoso magnata tinha uma verdadeira legio de fs, que ia desde atrizes e modelos famosas at a mais humilde novaiorquina, todas ansiosas por agrad-lo.
Entretanto, como ouvira dizer que ele ia para a Grcia com certa frequncia, Sam imaginava que deveria haver algum, uma mulher especial, esperando por ele em seu pas. O mais provvel era que fosse uma dama que Perseu Kostopoulos quisesse proteger dos paparazzi e da imprensa em geral.
Essa mulher deveria ser muito corajosa por t-lo como amante... e tambm muito feliz, concluiu uma vozinha traioeira vinda de dentro de Sam.
 Vou direto ao ponto  ele prosseguiu, alheio aos sentimentos que despertava.  Na noite passada, quando estava no meio de um vo de Atenas para Nova York, minha secretria recebeu um telefonema importantssimo e tentou me contactar no avio, porm, como havia muita esttica, ela deixou o nmero do telefone da pessoa que ligou sobre minha mesa. Ao chegar, vim do aeroporto direto para c, mas foi apenas para descobrir que o papel havia desaparecido.
Ele ainda no tinha acusado Sam, mas a inferncia fora mais do que clara.
Nervosa, Samantha afastou um caracol do cabelo dourado que lhe caa sobre a testa. Durante todo o tempo, tinha conscincia de que os olhos perscrutadores no se desviavam de seu rosto tingido pelo rubor. Nunca fora o tipo de pessoa que invejava os outros, porm, pela primeira vez em sua vida, desejou ter um pouco do glamour e da elegncia que encantariam este homem.
 Tenho limpado este escritrio nos ltimos seis meses, sei muito bem que no devo mexer em nada. Portanto, tudo o que fiz quando estive aqui foi tirar o p, passar o aspirador e lavar o banheiro.
As sobrancelhas escuras foram arqueadas a ponto de se tornarem uma marca negra e intimidadora no rosto anguloso.
	No viu nada sobre minha escrivaninha?
Samantha virou-se para escrivaninha com tampo de vidro. Havia apenas um telefone ali e, involuntariamente, ela se perguntou como um homem to importante quanto Kostopoulos poderia gerir seus negcios sem nem um tipo de papel ou equipamentos eletrnicos  mostra.
	No, no vi!  garantiu.  A escrivaninha estava exatamente como agora, isto , como se tivesse acabado de chegar da loja de mveis : alfinetou. Oh, no deveria ter feito aquilo, sabia que no deveria, mas falar o que lhe ia na mente era um de seus maiores defeitos.
Um riso sarcstico brincou nos lbios maravilhosos do grego.
	No preciso de papis, o que  importante guardo na minha cabea  respondeu ele, lendo-lhe os pensamentos com uma preciso humilhante.  O resto deixo para minha secretria fazer,  para isso que  paga, e muito bem paga, diga-se de passagem.
Sam estremeceu, era bvio que Perseu Kostopoulos no era do tipo que leva desaforo para casa.
	No se lembra de ter esvaziado o cesto de lixo?
	ele insistiu, num tom imperioso.
Sam ergueu o queixo num gesto orgulhoso.
	No foi preciso, porque no havia nada no cesto explicou.
Os lbios carnudos voltaram a se curvar de maneira desagradvel. Obviamente insatisfeito com as respostas de Sam, ele chamou a secretria pelo interfone.
	Por favor, sra. Athas, venha at aqui e traga seu bloco de recados.
Segundos depois, a senhora elegante, que o assessorava havia mais de dez anos, entrou na sala carregando um pequeno bloco de anotaes.
O bloco era amarelo-ouro e, de repente, a cor ajudou Samantha a se lembrar. Sem querer, deixou que um gemido de surpresa lhe escapasse dos lbios.
	Ser que gostaria de me dizer alguma coisa, srta. Telford?  ele inquiriu, observando-lhe a reao.
	Si... sim. Agora me lembro  revelou, trmula.
 Vi um pedao de papel amarelo aqui, ontem, mas no estava sobre sua mesa e sim no cho, prximo ao cesto de lixo. Presumi que algum tivesse tentado jog-lo no cesto, mas que errara o alvo.
Kostopoulos deixou que prosseguisse, porm, o brilho que havia no fundo dos olhos escuros ia se tornando cada vez mais ameaador.
	Bem, como era exatamente o que eu estava precisando  Sam concluiu , peguei-o e o coloquei em meu bolso.
A esta altura, as mos morenas de Perseu estavam nos quadris msculos e, para o desespero de Samantha, a velha secretria, sbia e convenientemente, tinha desaparecido atrs da porta dupla, deixando-a s para enfrentar a ira do chefe.
Em sua fria, Perseu proferiu vrias palavras em grego, antes de exigir:
	Explique por que confiscou um pedao de papel de meu escritrio, srta. Telford, mesmo achando que este no era importante!
Ah, a arrogncia dele era um pouco demais para Sam!
	Na verdade, houve uma boa razo para eu faz-lo, senhor  rebateu, sentindo que a raiva e a indignao comeavam a crescer dentro de si.
	Para o seu prprio bem, espero mesmo que haja  Kostopoulos alfinetou, deixando claro qual era sua posio.
Sam no gostava de ser ameaada, por isso, encarou-o com olhar beligerante, ao mesmo tempo em que falava:
	Eu estava passando o aspirador sob sua mesa quando vi o papel que tinha o formato e a cor exata que precisava para completar minha colagem.
	Colagem?!  repetiu Perseu quase que gritando.
	Sim, meu trabalho de concluso do curso  Samantha esclareceu.  No comeo deste semestre, meu professor, o dr. Giddings, insistiu que para o trabalho final s poderamos usar restos de papis que encontrssemos na ruas ou jogados em algum lugar. Tambm deixou claro que no deveramos usar tesouras
ou qualquer tipo de material cortante, portanto, precisaramos utilizar os papis na formas e cores exatas em que foram encontrados.:. O objetivo deste projeto era criar obras de arte que pudessem ser expostas em galerias que valorizam a reciclagem.
Os olhos negros emitiam fascas quando Perseu se fez ouvir:
	Se estou entendendo bem, voc est me dizendo que o papel que minha secretria deixou sobre a mesa agora  parte de sua colagem?
	Sim, mas eu no o peguei de sua mesa. O papel estava no cho.
Enquanto falava, Sam o viu passar as mos por entre os cabelos que caam pouco abaixo do colarinho da camisa branca impecvel.
Infelizmente, ela tambm gostaria de acariciar os caracis cor de bano e experimentar a textura das madeixas reluzentes, por isso, teve dificuldade em se concentrar em sua defesa.
"O que estava havendo com seu bom senso?", perguntou-se, assustada. At agora nunca havia se interessado seriamente por ningum. Todavia, o belo sr. Kostopoulos, um completo estranho, tinha ateado um fogo a sua alma que parecia estar se tornando mais intenso a cada momento que passava a seu lado.
	Sua explicao  to incrivelmente absurda que estou inclinado a acreditar que esteja dizendo a verdade, srta. Telford  escarneceu o grego.
	Ora, certamente no  mais absurda do que o fato de o senhor ter um Picasso em seu escritrio!  explodiu, perdendo o controle que se impingira at ento.
Perseu pestanejou.
	E o que meu Picasso tem a ver com nossa conversa, mocinha?  vociferou.
No era preciso ser muito esperta para perceber que ele no estava acostumado a ser desobedecido ou contestado.
	Tem tudo a ver. O senhor  um amante da arte que, por certo, no sabe pintar uma nica linha.  "Ooh, erro nmero dois", reconheceu Sam, ao ver a expresso ameaadora pairando no semblante moreno.
 Mas, voltando a sua pergunta, tanto o senhor quanto meu professor so ambos admiradores de Picasso. A diferena  que, enquanto o senhor aprecia sua obra de arte confortavelmente instalado num luxuoso escritrio; meu pobre professor faz o que pode para obter fotos de originais em livros e museus, para conseguir que seus alunos estudem o gnio e a grandiosidade de Picasso, e, claro, testem sua filosofia.
Perseu a encarou incrdulo.
	Que filosofia?
	A de Picasso. Ele disse: "O artista  um receptculo das emoes que brotam de todos os lugares; do cu, da Terra, de uma forma passageira, de uma teia de aranha ou de um simples pedao de papel. Devemos pegar o que nos serve em qualquer lugar que o encontrarmos."
Ora, Kostopoulos achava que era louca, mas, para ser franca, nesse momento, Samantha sentia como se o fosse.
	Sendo um discpulo de Picasso, o dr. Giddings nos desafiou a criarmos obras-primas a partir desta teoria, usando todos os pedaos de papis que pudssemos conseguir.
Por uma instante, seus olhares se encontraram, gerando um novo turbilho de emoes no peito de Sam e deixando-a ofegante.
Depois do que lhes pareceu uma eternidade, Perseu indagou:
	Onde est...  fez uma pausa  este trabalho de arte?  A zombaria inrustida no tom do comentrio era evidente.
	Na universidade.
	Muito bem. Ento iremos at l busc-lo.
	Temo que o papel tenha se fixado na tela de fundo porque usei cola para papel de parede  explicou.  Se eu tentar descol-lo, poder arruinar minha colagem.  Para seu desespero, as ltimas palavras, saram de uma s vez. Claro que no arruinaria seu trabalho de concluso de curso, apenas para agradar Kostopoulos, mas bem que poderia ter sido mais cautelosa.  Mesmo se pudesse descolar o papel que o senhor deseja, provavelmente, no poderamos mais ler o que estava escrito ali.
	Neste caso, senhorita,  melhor comear a rezar para que os deuses estejam do seu lado hoje  advertiu-a Perseu.  Preciso daquele papel o quanto antes e no h a menor possibilidade de me dissuadir do que quero, portanto, desista de me fitar com estes olhos marejados.
	Marejados!?  ela praticamente gritou.
	Sim, marejados como se fossem amores-perfeitos respingados por gotcuias de chuva. Mas, deixe-me avis-la de que as lgrimas femininas no exercem nenhum efeito sobre mim.
Samantha cerrou os punhos.
	Neste caso, deixe-me preveni-lo tambm de que os bilhes de dlares de um homem no me intimidam.
	O que est pensando, que  um Deus capaz de fazer os mortais estremecerem diante de um simples arquear de suas sobrancelhas!? Bem, tenho uma novidade para o senhor, sr. Kofolopogos ou seja l qual for seu nome... Perseu franziu o cenho ao ouvir as palavras corajosas.
	Esta mortal aqui no se deixa intimidar pelo dinheiro  Samantha prosseguiu.  Quem quer que tenha lhe telefonado e deixado aquele nmero ir ligar novamente. Alm do qu, se sua secretria  to fantstica, ela deveria ter anotado o nmero em sua agenda tambm, no em um simples pedacinho de papel. O que estou querendo dizer  que nenhum pedao de papel  mais importante do que minha nota final!
As feies morenas se transformaram em uma mscara implacvel.
	Uma vez que a senhorita no sabe nada sobre minha vida, a no ser as fofocas que ouviu neste escritrio ou que andou lendo em jornais sensacionalistas, vou ignorar seus comentrios  anunciou Perseu com ar petulante.
Infelizmente, a verdade do que ele dissera tingiu as faces alvas de Samantha do mais intenso rubor.
	Oua, sr. Kostopoulos  comeou a responder, mais sensata , perdi a cabea. Lamento muito que tudo isso tenha acontecido, mas o senhor deveria perceber que nada foi intencional. O problema : no sei se meu professor ainda est na universidade. Hoje  sexta-feira e, por certo, todos os departamentos ficaro fechados at na segunda de manh.
	Ento encontrarei algum para nos deixar entrar ou mesmo telefonarei pessoalmente para seu professor.
	Mas...
	Podemos ir?  Ele a ignorou e seguiu direto para  porta que conduzia a seu elevador particular.
O elevador era menor do que o utilizado pelos funcionrios e, ao entrar, Sam sentiu-se minscula ao lado do grego de quase um metro e noventa de altura. A medida que desciam para a garagem subterrnea, comparou-se  Persfone, levada para o inferno pelo implacvel deus Pluto. Para piorar, seu brao roou no de Perseu, deixando-a consciente do corpo musculoso e atltico que exalava um suave aroma de sabonete vert.
Sim, Perseu Kostopoulos tinha uma aura de masculinidade e poder que deixava todos ao seu lado reduzidos a meros mortais. No importava o que ela tivesse dito h poucos minutos, o fato era que seria difcil no se render a seu domnio e superioridade e, mesmo  contragosto, Samantha o admirou ainda mais. Seria uma mentirosa se negasse o quanto ele mexia com suas emoes mais profundas.
De repente, tinha certeza de que aquele grego era o nico ser humano capaz de criar seu prprio destino. Nunca em sua vida encontrara algum parecido, muito embora, tivesse de reconhecer que Perseu a intimidava sobremaneira.
O nmero do telefone que estava escrito no papel que usara em sua colagem deveria ser mesmo de vital importncia para lev-lo a agir assim, e o invejvel sexto sentido feminino dizia a Sam que a pessoa que ligara tinha uma relao ntima com o belo sr. Kostopoulos. Sim, era bvio que no eram apenas negcios, mas sentimentos que estavam em jogo.
Estava to compenetrada em suas consideraes que demorou a perceber quando o elevador parou na garagem do subsolo.
Assim que saram para o vo livre, avistou um homem de bigode parado ao lado de um Mercedes preto.
Sem que fosse dita uma palavra, o motorista abriu a porta do banco de passageiro para Sam, enquanto Kostopoulos assumia seu lugar  direo.
Ento, patro e empregado comearam a conversar em uma lngua que, supostamente, era grego. As palavras soavam estranhas e misteriosas para Sam. Oh, sim, tinha estudado espanhol no colgio e francs na faculdade, mas qualquer coisa alm dessas lnguas latinas era um verdadeiro antema para ela.
Quando o homem de bigode sorriu, Samantha estremeceu. Temia que seu raptor estivesse contando ao empregado o que ela fizera com o nmero de telefone que a secretria deixara sobre sua mesa.
Por certo, o charmoso sr. Kostopoulos no acreditaria em sua verso dos fatos at que pudesse recuperar o papel que lhe pertencia. Graas aos cus tinha sido honesta e poderia provar isto. Ainda assim, no lhe agradava que falassem sobre ela quando no podia entender o que diziam.
Entretanto, logo que deixaram a garagem do prdio e passaram a deslizar pelas ruas de Nova York, uma voz profunda soou a seu lado:
	Relaxe, thespinis, no estvamos falando a seu respeito. George s me contou as ltimas traquinagens de seu filho. Portanto, seu segredo ainda est seguro.
Cus, ele podia ler seus pensamentos com uma preciso impressionante! Ser que seu rosto era transparente!?
	Por enquanto, minha cara  Kostopoulos prosseguiu indiferente , tudo o que preciso  que voc aja como se fosse meu navegador para chegarmos at a universidade. E tente me indicar o caminho mais rpido, pois tenho um encontro importante s quatro e meia.
Samantha brincou com a bainha de sua camisa jeans, fazendo de tudo para no ter de encar-lo.
	Vou tentar, sr. Kostopoulos, mas no posso fazer nada em relao ao trnsito complicado e tambm no quero ser responsabilizada se chegarmos l e o departamento de artes j estiver fechado. Agora vire  esquerda na prxima esquina  orientou-o.
Perseu fez o que era dito e, de repente, comeou a negociar a mudana de ruas e avenidas por aquelas que achava mais prticas e com menos movimento, com a esperteza de um motorista de txi novaiorquino.
	Deixe-me s preveni-la de uma coisa, minha cara --- ele se fez ouvir aps alguns minutos.  Se estiver me enganado com esta histria, vai perder seu emprego antes que possa entender o que est acontecendo.
Sam estremeceu.
	Como s tenho cem dlares em minha conta-corrente, no seria tola de colocar meu emprego na Manhattan Cleaners em perigo...  hesitou, mas no pde evitar de completar:  De qualquer forma,  claro que algum como o senhor nunca entenderia o que  isso.
Para sua surpresa, os lbios carnudos do grego se abriram num largo num sorriso que se transformou numa sonora gargalhada.
	Acha que no me lembro de como era ser um garoto pobre em Serifos, que fazia os trabalhos mais pesados do porto apenas para ganhar algumas dracmas por dia?
Havia um nota de tamanha emoo inrustida no comentrio de Perseu que demorou um pouco para que Samantha se desse conta de que ele acabava de lhe dar uma pista sobre o homem que existia por trs daquele verniz de sofisticao. A menos,  claro, que estivesse tentando despertar sua compaixo. Mas, se fosse assim, no o deixaria conseguir tal intento.
	Ora, lembro-me de ter lido em uma revista que Aristteles Onassis comeou da mesma forma  alfinetou-o, no querendo se deixar levar pelas emoes.
	Confesso que tivemos um comeo bem parecido sim  foi tudo o que Perseu respondeu.
Como todas as pessoas que fazem julgamentos apressados, Sam havia presumido que Kostopoulos ha-
via nascido em bero de ouro e que nunca passara por dificuldades econmicas, pelo jeito, tinha se enganado.
O simples fato de um pobre menino grego ter conseguido enriquecer e chegado ao topo do mundo dos negcios graas a sua determinao e vontade, o tornavam ainda mais atraente a seus olhos. De repente, descobriu-se querendo saber muito mais a respeito de Perseu, mas, para sua infelicidade, no estava em posio de question-lo. O pouco que sabia sobre o grego admirvel era o que os funcionrios da Kostopoulos Export diziam, ou ento, o que lia em revistas e jornais de fofocas.
Todavia, depois de conhec-lo pessoalmente tinha de admitir que era ainda mais enigmtico do que os jornalistas diziam. Era tambm mais bonito e charmoso, alm de dirigir rpido demais para sua paz de esprito...
Talvez por causa disso, tenham chegado a universidade na metade do tempo que ela faria, se  que tivesse um carro para lev-la at l.
Introspectivo, Perseu conduziu o Mercedes preto at o estacionamento privativo do corpo docente.
	Eles guincham os carros que estacionam em local proibido  informou Sam, ao v-lo parar na vaga de um dos chefes do departamento de lingustica.
	Se isto acontecer, George vir nos buscar com a limusine. Neste momento a nica coisa que me interessa  encontrar o papel onde est marcado o nmero daquele telefone. Vamos rpido.
Antes que Sam pudesse se dar conta do que tinha acontecido, ele j a tirara do carro e a puxava na di-reo do prdio, cujos letreiros identificavam como Departamento de Artes.
Assim que entraram, avistaram a secretria do dr. Giddings mexendo em uma gaveta do arquivo.
	Lois?  Samantha chamou-a.
A mulher mais velha ergueu a cabea e a encarou.
	Oi, Sam. O que est fazendo aqui a esta hora?
Lois bem que estava tentando, mas no conseguia desviar os olhos da figura imponente que dominava a pequena recepo. Mas quem poderia culp-la?
Em outras circunstncias, Sam at os teria apresentado. Afinal, Lois ganharia seu dia se descobrisse que estava diante do poderoso Perseu Kostopoulos. Contudo, como desconfiava que o grego detestava o furor causado em torno de seu charme e riqueza, decidiu preservar sua identidade para no ficar exposta a uma ira ainda maior.
	Preciso de minha colagem de volta, Lois  foi direto ao ponto.
	Voc deve estar brincando! Tem uma centena de colagens espalhadas pela galeria. Acabei de tranc-las, pois estou pronta para ir para casa. Foi um dia terrvel.
	Concordo com voc sobre o dia no ter sido dos melhores  Sam sussurrou , mas isto  uma emergncia. No tenho tempo para te explicar os detalhes, s que no posso ir embora sem minha colagem.
	O dr. Giddings no vai aceitar trabalhos atrasados, Sam  preveniu-a a outra moa.
	O meu no est atrasado, voc mesma o recebeu e trancou na galeria. S aconteceu de eu ter tido um pequeno problema e precisar de um papel que colei errado. Prometo que o trarei de volta na segunda de manh. O professor no vai nem perceber, Lois. Se me fizer este favor, te darei aquela toalha de banquete que bordei e pintei no semestre passado.
Lois revirou os olhos.
	Ah, voc me disse que nunca a daria a ningum.
	Mudei de ideia  respondeu, fitando Kostopoulos de soslaio.
Lois seguiu o olhar dela e puxou-a para o canto da sala.
	Cus, quem  ele, menina?  cochichou.  Em que planeta o encontrou?
	No meu trabalho  respondeu evasiva.  Por favor, Lois, me ajude.
	Quer tanto assim esta colagem de volta?
	Sim,  uma questo de vida ou morte.  O que no era exatamente uma mentira. Afinal, tinha a sensao que Kostopoulos a reduziria a p se no conse guisse o que desejava.
Com um longo suspira, a secretria tirou uma chave da gaveta e entregou-lhe.
	Certo, v l dentro e pegue. Mas seja rpida, pois j deu minha hora de ir para casa.
	Obrigada!  Sam exclamou, dando-lhe um abrao apertado.  Ele vai "me ajudar a procurar, portanto, no deveremos demorar muito.
Com a chave nas mos, Sam dirigiu-se para o longo corredor, seguida de perto pelo charmoso sr. Kostopoulos.
	O que exatamente deveremos procurar?  Perseu quis saber, quando entraram na sala e Sam acendeu a luz.
Samantha hesitou, sentindo-se perturbada por o corpo moreno estar to prximo do seu.
	Se fiz um trabalho decente o senhor no vai ter o menor problema em descobrir do que se trata  respondeu, enigmtica.
	Por acaso isto  uma charada, mocinha?  empertigou-se ele.
	No, acontece apenas que meu trabalho deve lhe chamar a ateno mesmo estando no meio de tantos outros.
Com aquele comentrio, ela rumou para as pilhas e pilhas de colagem que cobriam quase todo o espao da pequena galeria da universidade.
Kostopoulos dirigiu-se para o lado oposto e, aps alguns momentos, tornou com sarcasmo:
	J vi muitos que me chamaram a ateno. Ser que no pode ser mais especfica quanto ao que devo procurar, srta. Telford? Estou comeando a perder a pacincia.
Samantha olhou para a expresso ameaadora que pairava no rosto moreno e decidiu que no era hora de brincar ou se esconder atrs de enigmas.
Certo, j que insiste, sr. Kostopoulos, o tema de minha colagem  o edifcio de sua empresa, portanto, a reconhecer no instante em que a vir  explicou com uma nota de cinismo a permear-lhe a voz melodiosa.

CAPITULO II

O que voc quer dizer com o edifcio de minha empresa?  Perseu repetiu, franzindo o cenho.
	Simples, seu edifcio  um dos mais bonitos desta cidade, com os detalhes em creme e o logotipo da fachada  naquela   nuance  indescritvel   de   azul-royal. Como trabalho l todas as noites, decidi que poderia us-lo como tema de meu projeto. Mas, diferentemente do que acontece quando estou no escritrio, na minha colagem o edifcio est repleto de pessoas em movimento, para que no parecesse to solitrio.
	Solitrio?  Perseu lhe fez eco.
	Sim.  Aquela altura Sam j estava ocupada, procurando por sua colagem.  Todo prdio tem uma essncia, uma alma. O seu, por exemplo, me faz lembrar de um fabuloso templo grego, magnfico, mas um tanto remoto. Por isso coloquei pessoas nas janelas a fim de fazer com que parecesse um lugar mais alegre e acessvel aos mortais.
Pela ensima vez, tinha falado alm do que deveria. Contudo, agora Samantha entendia as emoes que experimentava sempre que apreciava o prdio da Kostopoulos Shipping and Export. Sim, como seu dono, embora magnfico, o edifcio era imponente e distante 
da realidade dos simples mortais. Era impressionante, mas, ao mesmo tempo, assustador em sua perfeio.
Irritada com o rumo de seus pensamentos, Sam deu um longo suspiro e deixou as consideraes de lado, pois percebeu que os olhos cor de jabuticaba estavam fixos nas expresses transparentes de seu rosto delicado. Droga, queria fingir que estava sozinha, mas no era capaz. Como ignorar que o corpo atltico daquele Perseu do sculo vinte a atraa como um im gigantesco?
Impossvel! Mesmo assim, Sam tentou se concentrar no motivo que a trouxera  universidade. Nervosa, remexeu nos trabalhos de seus colegas. Muitas colagens eram bizarras, porm, outras eram verdadeiras obras de arte e, de repente, ela se pegou desejando que Perseu Kostopoulos tambm apreciasse a colagem cujo tema era o edifcio da empresa de exportao.
"Deixe de ser tola, Samantha Telford, este homem maravilhoso s est aqui por causa do pedacinho amarelo de papel que voc pegou do escritrio dele. Nada mais!", tentou ser prtica e realista como sempre fora, mas ficava cada vez mais difcil agir com sobriedade.
Passaram-se outros cinco minutos e os dois continuaram a vasculhar as pilhas de colagens. Sam comeava a se perguntar se o seu trabalho estaria realmente l quando ouviu uma exclamao de surpresa emergir dos lbios carnudos de Perseu.
Ela levantou a cabea a tempo de v-lo erguer uma enorme tela diante dos sagazes olhos negros.
	Voc fez isto aqui com restos de papel!?  A incredulidade que permeava a voz de bartono no dava nenhuma pista se ele havia gostado ou no.
	Si... sim  balbuciou, insegura.
Seguiu-se um silncio desconfortvel, ento:
	Onde est o papel que tirou de meu escritrio?
Sam concluiu que a rouquido dele era previsvel, afinal, estava prestes a conseguir o nmero de telefone que tanto queria.
	Est na ltima janela  direita  respondeu.  Coloquei ali para dar uma ideia de iluminao e brilho que faltava no contexto geral.  No momento em que se postou ao lado de Perseu e apontou para o papel amarelo-ouro com dedos trmulos, percebeu que ele a observava com uma intensidade desconcertante.
	Esse  meu escritrio!  exclamou, estreitando os olhos to escuros quanto os longos cabelos negros.
	No pensei nisto quando fiz a colagem  defendeu-se Sam, sentindo um arrepio percorr-la de alto a baixo.  Foi apenas uma coincidncia.
Graas aos cus, Lois escolheu justo aquele momento para surgir na porta da galeria e interromp-los:
	Ainda no encontrou seu projeto, Sam?  inquiriu a secretria, um tanto mal-humorada.  Preciso fechar o departamento.
	Encontrei sim  Sam afirmou.  J estamos saindo... Obrigada, Lois  agradeceu, comeando a se dirigir para a porta, seguida de perto por Perseu.
	Tudo bem, mas me traga este trabalho de volta na segunda-feira antes das oito. J vi o dr. Giddings reprovar alunos do ltimo semestre por bem menos do que isso, minha cara. E sua formatura que est em jogo.
Sam anuiu e quando j deixavam o prdio e rumavam para o Mercedes preto, Perseu questionou:
	Est se formando?
Sam no ousou encar-lo.
	Sim, a formatura ser na prxima semana. Mas voc ouviu o que Lois disse: se meu professor descobrir o que houve, posso ter de assistir s aulas do prximo semestre antes de conseguir meu diploma. De qualquer forma, o simples fato de retirar o papel amarelo da janela vai me custar alguns pontos na nota.
	No se preocupe com isto agora. Se o pior acontecer, explicarei, pessoalmente, as circunstncias para seu professor.
Ela meneou a cabea de um lado para outro.
	No adiantaria. Uma vez que o dr. Giddings tome uma deciso, nem mesmo o poderoso Perseu Kostopoulos ser capaz de faz-lo mudar de ideia.
	Veremos  foi a resposta lacnica que Perseu proferiu antes de se postar  direo e conduzir o Mer cedes pelo trnsito catico de Nova York.
	Sr. Kostopoulos  comeou a dizer Samantha, ao perceber que ele se dirigia para a empresa , vou precisar de ferramentas especiais para descolar este papel sem causar danos  minha colagem ou mesmo apagar o nmero que sua secretria anotou a. Se no se importa, pode me deixar aqui que irei para meu apartamento. Quando tiver terminado, ligo para o senhor.
	Qual seu endereo?
Satisfeita por ele ter aceitado a sugesto sem contest-la, Sam deu-lhe o endereo, antes de se recostar no assento de couro e relaxar um pouco.
	Vire a esquerda no prximo farol  orientou-o quando se aproximavam da rua em que morava.  Meu prdio fica no meio do quarteiro. O trfego  to ruim que  melhor me deixar na esquina mesmo.
Assim que o Mercedes parou no farol, Samantha tentou destrancar a porta para descer, mas a fechadura no respondeu a seu toque.
	Pode destravar a porta, por favor  pediu, voltando-se para ele, que tinha o controle sobre a trava automtica.
Entretanto, seu pedido no foi sequer ouvido, pois, nesse exato momento, Perseu tirava o telefone celular do bolso e pedia  secretria que desmarcasse o encontro que teria no final da tarde.
De sbito, o corao de Sam comeou a bater descompassado. Sim, tinha a estranha premonio de que ele pretendia acompanh-la at seu apartamento, para esperar a retirada do papel amarelo da colagem.
Havia inmeras razes para no quer-lo em sua casa. Para comear, o apartamento de um nico quarto estava no mais completo caos, pois no tivera tempo de limp-lo e organiz-lo, j que passara todo as horas livres preparando o trabalho que deveria entregar ao dr. Giddings naquela manh. Para piorar, no havia sequer espao para receber uma visita como Perseu Kostopoulos, a sala era minscula, conjugada com uma cozinha e o nico sof de que dispunha estava cheio de pedaos de papis e tintas que usara em seu trabalho.
Desesperada, comeou a dizer a ele que no deveria estacionar na zona reservada para carga e descarga, ento percebeu que seria perda de tempo faz-lo. Afinal, um homem como Perseu Kostopoulos escrevia suas prprias regras e normas.
Alheio ao descontentamento que provocava, ele desceu do Mercedes, contornou-o e ajudou-a a fazer o mesmo. Depois de pegar a colagem do bagageiro, segurou-a pelo cotovelo e conduziu-a para a porta do prdio simples em que morava.
Uma vez no hall de entrada, Sam esperou pelo elevador e olhou de soslaio para seu acompanhante.
	No  necessrio ficar esperando, se me der o nmero de seu celular ligarei assim que tiver conseguido descolar o papel.
Mal terminara de falar, a porta do elevador se abriu e Perseu a empurrou para dentro da gaiola de ao, antes de responder:
	J que estou aqui, no faria sentido ir embora sem conseguir o que desejo.
Depois de tal argumento, seguiram at o stimo andar em silncio.
Uma vez no corredor, Samantha parou diante da porta e comentou indecisa:
	Talvez fosse melhor que o senhor tivesse ficado em seu carro.
Perseu arqueou as sobrancelhas em forma de asas de guia.
Se est preocupada com o que seu namorado ir pensar, ficarei feliz em explicar o que est realmente acontecendo.
As faces alvas de Sam foram tomadas por um rubor intenso.
	No tenho namorado!  exclamou indignada.  O problema  que o apartamento  to pequeno que mal tem lugar para mim, que dir para um visitante!
Perseu deu de ombros, displicente.
	Ento no tem problema. Passei minha infncia num quarto que no era muito maior do que um closet de madame. No h por que se envergonhar.
Sam replicou entre os dentes:
	Ser que nunca lhe ocorreu que no estou querendo sua companhia?  desafiou-o, comeando a perder a pacincia.
	Mas eu no sou uma companhia  Perseu retrucou, inabalvel.  Vou ajud-la, me d a chave.
No instante seguinte, j pegava as chaves das mos trmulas e abria a porta, sinalizando para que o precedesse.
O breve contato com os dedos morenos provocou uma sensao eletrizante que ela nunca experimentara ao longo de seus vinte e quatro anos. Aquele toque a confundira a um nvel que transcendia uma explicao inteligente.
	Onde devo colocar esta colagem para que voc possa comear o trabalho?  Perseu indagou. A pergunta casual deixou claro que, ao contrrio de Sam, ele fora indiferente ao toque.
Mais uma vez, Samantha se recriminou por reagir com tanta intensidade diante de um mero desconhecido. Dando um longo suspiro, dirigiu-se at a pequena mesinha de centro e removeu alguns papis e lpis que haviam ali, antes de instruir:
	Coloque-a aqui.
Desviando dos restos de jornal manchados de tinta, que ainda estavam cados no cho, Perseu fez o que lhe era dito.
	Espere um minuto que vou pegar a talhadeira e uma martelinho  pediu ela, indo at o pequeno corredor onde se abria a porta do banheiro e pegando o que estava num armrio suspenso na parede.
Ao retornar  sala e cozinha conjugadas, encontrou o poderoso sr. Kostopoulos acomodado no brao do sof, apreciando a toalha de mesa que criara no ltimo semestre. Na verdade, a toalha lhe valera a nota mxima em criatividade, pois no s a bordara, como tambm pintara cenas silvestres em cada um dos quadrados, conferindo nuances raras s paisagens americanas.
Ento, de sbito, viu-o pegar o rolo de macarro que estava sobre o sof e ficou horrorizada. Sim, usava aquele rolo para toda espcie de trabalho da faculdade, menos para cozinhar.
Pela primeira vez, desde o momento em que se encontraram, pensou ter visto a sombra de um sorriso cruzar o rosto msculo e atraente.
	Presumo que deixe isto aqui para se defender dos intrusos  zombou Perseu.
Sam pestanejou. Era a primeira vez que pensava em dar tal utilidade ao objeto que as pessoas normais costumavam usar apenas na cozinha.
	 uma excelente ideia!  Sua espontaneidade deveria t-lo tocado, pois, desta vez, um riso discreto brincou na boca sensual de Perseu.  Mas, para ser franca, usei o rolo de macarro em minha colagem.
	Verdade?  surpreendeu-se.
	Sim, gostaria que eu lhe explicasse?  ofereceu-se num impulso.
	Por favor, minha cara, explique. H muito tempo que no sou cativado e entretido pela inteligncia e sensibilidade de outro ser humano. Estou ansioso para descobrir como este objeto contribuiu para o resultado final de sua colagem.
"Ser que Perseu realmente havia gostado do resultado final?", perguntou-se curiosa. Ele no dissera nenhuma palavra sobre o assunto.
	Se  assim, vou demonstrar o que fiz.
No ousando encar-lo, Sam pegou o rolo das mos viris e, depois de dobrar um pedao de jornal que havia no cho, passou-o sobre ele.
	Voc precisar fazer isto dezenas de vezes para conseguir um efeito similar a rugas. Fiz isto com cada pedao de papel da colagem, para que parecesse o rosto de uma pessoa idosa. Depois abri o papel e apliquei um pouco de spray de cabelo para criar faixas mais claras de tintas, que simulavam os cabelos grisalhos.
	Interessante  murmurou Perseu, compenetrado.
	E quando o papel secou, foi s model-lo na palma da mo para que tomasse a forma de uma pessoa. Fiz o mesmo para conseguir reproduzir o emblema grego que compe o logotipo da empresa, que fica na fachada do prdio. Como pode ver  atalhou, erguendo um pouco a tela onde fizera a colagem , o spray tambm serve para convencer os observadores de que esto olhando para uma delicada porcelana e no para restos de papis. Ou 'pelo menos, era esta a impresso que eu desejava passar.
	Pode ficar certa de que conseguiu atingir seu objetivo, minha cara.  A medida que falava, os olhos escuros de Perseu procuraram os azuis de Sam e, petrificada, ela sentiu todo o seu corpo estremecer de prazer.
Desacostumada  sensao eletrizante, recolou a colagem sobre a mesinha de centro e tentou se concentrar no que precisava fazer.
Mesmo assim, pelo canto dos olhos pode v-lo caminhar pela sala diminuta, apreciando os quadros e pequenas esculturas que ela fizera e que imprimiam vida e luminosidade ao ambiente despretensioso.
Perturbada, mas sabendo que no poderia parar, Sam ajustou a talhadeira bem no alto da janela representada na colagem, onde utilizara o papel amarelo-ouro, e bateu com martelinho para soltar a cola de papel-de-parede que usara. Contudo, ela no contava com a possibilidade de a tela escorregar sobre o tampo liso da mesa e foi justamente o que aconteceu.
Como resultado de tal deslize, um fio de sangue escorreu da palma de sua mo quando o instrumento de ferro penetrou na carne macia, ferindo-a sem piedade. Sem querer, deixou que um grito de dor lhe escapasse dos lbios naturalmente rosados.
Samantha no fazia ideia que algum do tamanho de Perseu Kostopoulos pudesse se movimentar com tanta rapidez e agilidade. Mas, de sbito, l estava ele, ajoelhado a seu lado e enrolando um leno branco na mo ferida.
Aturdida pela dor do ferimento e tambm por causa da proximidade de Perseu, Sam o ouviu murmurar:
	O ferimento foi muito profundo. Voc vai precisar dar alguns pontos na mo.
	Oh, no, ficarei bem!  protestou. Por alguma estranha razo, a simples viso do sangue a deixava zonza e ela no tinha foras para afast-lo de si.  Alm do qu, no tenho seguro sade e no posso me dar ao luxo de pagar um atendimento mdico.
	Acha mesmo que iria deix-la pagar quando fui o responsvel por este acidente?  esbravejou Perseu, indignado.  Vamos at o consultrio do meu mdico particular agora mesmo.
	Mas e minha colagem?  Samantha se desesperou.  Deve ter cado sangue sobre ela e...
Mal tinha terminado de falar e Perseu j tirava a colagem de sobre a mesinha e a levava at a torneira da pia. Sem pestanejar, lavou a mancha vermelha que aderia  tela e, em segundos, a colagem estava como nova.
	Foi uma sorte que tivesse usado spray na tela  falou muito srio , pois serviu para impermeabilizar o papel. De outra maneira, a esta altura, sua obra de arte estaria totalmente danificada. Agora, vamos para o mdico porque est sangrando muito.
O elogio dele, embora discreto, f-la sentir-se to bem que o acompanhou sem mais protestos.
Inacreditavelmente, logo estava, de novo, no interior do Mercedes preto, a caminho do mdico particular de Perseu Kostopoulos.
No entanto, um silncio aterrador se abatia sobre eles. Perseu parecia compenetrado em um mundo s seu. Sam, por sua vez, tambm se sentia perturbada demais para falar. Os acontecimentos das ltimas horas a tinham desorientado sobremaneira e, talvez, por esse motivo, nem percebeu direito o trajeto at a clnica particular para onde foi levada.
Ao entrarem no elegante edifcio pintado de branco, foram rapidamente atendidos pela recepcionista que, sem sombra de dvida, sabia muito bem que estava diante de um magnata grego, j que os tratou com toda deferncia.
Embora houvesse outros pacientes na sala de espera, Samantha foi a primeira a ser levada para a sala do dr. Strike.
Aparentemente, o mdico era um compatriota de Perseu. Depois de cumpriment-la, saudou-o efusivamente em grego e, em seguida, os dois homens morenos comearam a conversar na lngua dos antigos filsofos, como se fossem velhos amigos.
Intrigada, Sam sentou-se na maca, limitando-se a observ-los com ateno. De repente, a imagem do deus Pluto que associara  figura atltica de Perseu, sumiu de sua mente, dando lugar  sua histria favorita dentro da mitologia grega:
O belo e forte Perseu, filho de Zeus e Dnae, rejeitado pelo seqestrador de sua me, o ardiloso rei Polidecto, precisava provar que seria capaz de vencer qualquer desafio, at mesmo o de trazer a cabea de Medusa para a corte do rei, a fim de transformar este e todos os seus defensores em pedra. Alm disso, Perseu tambm conseguiu conquistar a formosa Andrmeda, resgatando-a das garras do monstro marinho e tornando-a sua esposa.
At poderia ser coincidncia, mas era inegvel que a vida do poderoso sr. Kostopoulos tinha muitos paralelos com a histria do Perseu da mitologia. Embora, evidentemente, fosse um homem do sculo vinte, Perseu Kostopoulos era tambm uma figura impressionante. At mesmo Samantha havia lhe atribudo caractersticas divinas desde o primeiro instante em que o vira.
Ser que haveria outras semelhanas entre o ser humano e a divindade mitolgica? Seria possvel que Perseu estivesse  procura de algo especial? Haveria mesmo uma mulher em perigo que o grego pretendia salvar a fim de torn-la sua para sempre!?
Por alguma misteriosa razo, esses pensamentos fantasiosos a perturbavam tanto que tudo o que Samantha conseguia desejar era que ela prpria fosse a mulher que Perseu cruzara o mundo para encontrar.
Um longo suspiro escapou de seus lbios rosados. Percebendo que os devaneios j tinham ido longe demais, Sam fez um grande esforo para se concentrar nas instrues do mdico.
Enquanto cuidava do ferimento na mo delicada, o dr. Strike observava-a furtivamente.
Por certo, o mdico tentava entender como algum to rico e poderoso quanto Perseu podia estar na companhia de uma mocinha to simples e despretensiosa, que ainda nem havia terminado a faculdade de Artes Plsticas.
No entanto, o maior interessado nessa histria, ou seja, o prprio Perseu, no dava mostras de estar preocupado com a curiosidade do amigo. Assim que o mdico terminou de cuidar do ferimento de Sam, Perseu proferiu algumas palavras de agradecimento e, segurando-a pelo cotovelo, conduziu-a para o Mercedes que haviam deixado no estacionamento da clnica.
Invadida por uma sensao inexplicvel, Samantha se deixou levar de volta para casa e nem discutiu quando Perseu teimou em acompanh-la at o interior do minsculo apartamento.
 Enquanto voc obedece as ordens mdicas e deixa a mo erguida, vou preparar alguma coisa para bebermos antes de voltar ao trabalho na colagem.
Na verdade, Samantha se sentia fraca demais para discutir com ele. L no fundo de sua alma, sabia que o ferimento era responsvel apenas por uma pequena parte da dor que a corroa interiormente, porm, preferia morrer a deix-lo perceber que, de fato, era a presena dele que provocava uma sensao devastadora.
A medida que uma estranha letargia roubava-lhe o ltimo resqucio de fora que ainda tinha, Samantha retirou alguns objetos de sobre o sof de dois lugares e sentou-se no canto deste, contentando-se em apreciar os movimentos felinos de Perseu.
 Tem uma caixa de ch no armrio, sobre a pia  informou-o, pensando que, dentro de poucas horas, teria de sair e enfrentar a garoa que comeava a cair naquela noite de maio, para poder dar conta de seu trabalho noturno como faxineira do escritrio da Kos-topoulos Export. Por mais que dependesse do salrio que recebia, no se sentia nem um pouco animada diante de tal perspectiva.
Alheio aos sentimentos que a torturavam, Perseu tirou o blazer que vestia, enrolou as mangas da camisa imaculadamente branca na altura do cotovelo, e s depois foi at a pequena cozinha onde colocou gua para ferver em uma velha chaleira. Quem o observasse naquele exato momento, podia at jurar que ele estava acostumado a tais tarefas mundanas!
Embora no o tivesse convidado a entrar em sua casa, Samantha teve de admitir que estava gostando daquela presena mscula e que a invaso no era to ruim quanto imaginara que seria.
Apesar das insistentes tentativas, nunca antes um homem havia conseguido passar da porta de entrada de seu apartamento. Perseu, no entanto, tinha simplesmente tirado a chave de suas mos, invadindo sua casa e... seu corao.
"Mas foi voc quem permitiu que ele fizesse isso, Sam. No pde e nem tentou impedi-lo!", recriminou-se, desolada.
Num gesto automtico, recostou a cabea no encosto do sof de segunda-mo e fechou os olhos azuis. At que era bom ter algum para cuidar dela, to bom que, por um momento, esqueceu-se da razo que fizera com que o grego charmoso entrasse em sua vida.
Assustada com o tumulto das prprias emoes, Sam voltou a abrir os olhos e sentou-se ereta.
No instante seguinte, Perseu entregou-lhe uma xcara de ch de flor de laranjeira. Afastando-se, foi at a mesinha de centro onde haviam deixado a colagem e comeou a trabalhar na tela. Ele parecia saber exatamente o que estava fazendo.
Quando se curvou para usar as ferramentas que soltaram o papel amarelo-ouro, Sam notou os msculos resistentes que se sobressaam contra o tecido fino da camisa branca. Como sempre, no pde evitar de pensar que Perseu seria o modelo perfeito de virilidade se um dia quisesse pintar ou esculpir um nu masculino.
Zangada com o rumo de seus pensamentos, Samantha tomou o ch de um s gole. Perseu o fizera forte e acrescentara mais acar do que ela normalmente consumia. Os lbios rosados se curvaram num leve sorriso. S agora se lembrava de que os gregos tinham uma forte predileo por doces e, por certo, Perseu no era uma exceo  regra.
	Pronto, j descolei o papel  avisou a voz de bartono, trazendo-a de volta  realidade.  Qual  o prximo passo?
Ficara to imersa em suas consideraes sobre as preferncias gregas, que s percebeu que Perseu a pegara observando-o com grande ateno, quando j era tarde demais. Desta vez, o rubor e um intenso arrepio percorreram todo seu corpo, inclusive as razes dos longos cabelos louro-dourados.
	Ah... teremos de usar um solvente para tirar toda a cola  informou, num tom mais alto do que costu
mava usar.  Espere s um momento que vou pegar o que precisamos.
	No  Perseu contrariou-a.  Diga onde est e eu mesmo pegarei.
O brilho nos olhos negros a preveniu de que, se ousasse desobedec-lo, Perseu no hesitaria em usar a fora bruta para obrig-la a ficar sentada onde estava.
No entanto, uma vez que para pegar o solvente ele teria que entrar em seu quarto e abrir o armrio, Sam no sabia qual alternativa era pior. Especialmente, porque a latinha com o lquido estava junto de suas camisolas e roupas ntimas.
Claro que peas ntimas femininas no eram nenhum mistrio para um homem como Perseu, mas no seriam as roupas de qualquer mulher que ele iria tocar, seriam as suas!
Talvez, muitas garotas no se importassem com tal detalhe, mas Samantha era diferente. Crescera sem ter um pai ou irmo por perto e, como sua moral a impedia d ter relacionamentos ntimos com um rapaz, antes do casamento, fora sempre muito recatada e se-letiva com o sexo oposto, mantendo-o distante de sua vida pessoal.
Para ser franca, tivera um nico namorado srio, mas quando Ricky descobriu que s pretendia ir para a cama depois do casamento, acusou-a de ser puritana e antiquada, antes de troc-la por uma outra garota da faculdade. Sam sofrera um pouco no princpio, depois at gostara do acontecido, pois lhe dera mais tempo para se dedicar a seus estudos e planos para o futuro.
	Por que a demora em responder?  Perseu insistiu em saber, ao v-la silenciosa.
Ela pestanejou, mas sabia que no adiantava contrari-lo.
	Est numa caixa encapada com papel azul, no fundo do meu guarda-roupa.
Ento, Kostopoulos desapareceu antes que Sam tivesse coragem de encar-lo.
Passaram-se alguns minutos e, como ele no regressava, Sam decidiu levantar-se e ir at o quarto para ver o que estava acontecendo.
 A caixa est... - comeou a dizer, antes de alcanar  porta, mas o resto da frase nunca chegou a ser proferida.
Perseu tinha, virtualmente, esvaziado todo seu armrio. No apenas o contedo das prateleiras e gavetas, mas tambm o que estava nos cabides, como as amostras de tecido que ela vinha estampando e pintando desde que era adolescente.
Na verdade, os cabides que tinha no armrio pareciam mais com o mostrurio de uma tecelagem do que com o guarda-roupa de uma mulher de vinte e quatro anos. As poucas saias e blusas que Sam tinha haviam sido amontoadas num dos cantos do mvel antigo.
Sem hesitar, Perseu abriu os tecidos sobre as duas camas de solteiro que havia no quarto e nem mesmo se deu ao trabalho de erguer a cabea para encar-la, ao perceber que ela entrava no cmodo minsculo.
	Onde conseguiu isto?  interpelou-a naquela voz vibrante que Sam reconheceria em meio a um milho de outras.
	Ora, eu os fiz  respondeu com simplicidade.
Perseu ergueu a cabea coberta pelos caracis negros e a encarou com um brilho indecifrvel nos olhos cor de jabuticaba.
 Se isso  verdade, minha querida, ento voc tem um toque de gnio nas mos.
	Acha mesmo?  replicou e sua voz no era mais do que um sussurro.
	Est querendo me fazer acreditar que no sabia!?  Desta vez Perseu parecia realmente zangado.
Encantada demais com o elogio, at se esqueceu de ficar zangada, limitando-se a sorrir com prazer. Se Perseu Kostopoulos, um amante da arte e tambm presidente de uma das maiores companhias de exportao de produtos txteis do mundo, estava apreciando seu trabalho, significava que no tinha perdido seu tempo ao criar tais peas.
Ao longo dos anos, Samantha havia sido muito elogiada por sua criatividade, mas, por alguma estranha razo, o cumprimento de seus professores e colegas nunca a fizera to feliz quanto o deste grego charmoso.
Oh, at houvera uma poca em sua vida em que se sentira tentada a revelar que era filha do renomado Jules Gregory, porm, o orgulho acabara por faz-la mudar de ideia. Sim, o sucesso s valeria a pena se vencesse por seu prprio talento e no graas ao nome famoso do pai.
Alm do qu, at onde sabia, Jules era um homem egosta que nunca procurara sua me para ajud-la a criar a filha que tiveram depois de um romance ardente.
Engolindo sua amargura, Sam inclinou-se para pegar o solvente no interior do guarda-roupa de madeira escura e depois voltou  sala.
Perseu a seguiu e tirou a lata de suas mos a fim de abrir a tampa.
Recusando-se a enfrentar os olhos negros, que a observavam atentamente desde que sara do quarto, ela foi at o armrio sobre a pia e pegou um pires de l.
	Se sua secretria escreveu o nmero do telefone a caneta, o solvente no o destruir. Porm, se ela anotou a lpis, temo que no poderemos recuper-lo.
	A sra. Athas costuma usar os dois  Perseu murmurou, colocando um pouco do lquido no pires que Sam lhe entregara.  Vamos ter de correro risco  dizendo isso, ele soltou o papel amarelo da colagem, que veio com um verdadeiro borro de cola de papel de parede no verso, e, em seguida, mergulhou-o no solvente.  Quanto tempo devo deixar aqui?
	Um minuto  Sam respondeu, sentindo que o ferimento comeava a latejar. No entanto, pior do que isto era ser tomada pelo temor de que a estratgia no iria funcionar e assim, dentro de pouco tempo, Perseu sairia de sua vida e nunca mais iria tornar v-lo.
	No deu certo  a voz de bartono voltou a chamar-lhe a ateno.  Acho que precisa de mais tempo para dissolver essa cola.
	Deixe outros dois minutos.
Perseu fez o que lhe dissera e Sam o encarou, consumida pela curiosidade e pela estranha urgncia que sentia de saber a verdade.
	Por que este nmero  to importante para voc? finalmente verbalizou o que lhe ia na alma.
O corpo msculo agitou-se e ela desejou ter ficado calada.
	H vinte anos, minha amada noiva enfiou uma navalha em meu rosto, o que resultou nesta horrvel cicatriz, depois desapareceu como que num passe de mgica  revelou Perseu, num tom impassvel.
A noiva dele fora a responsvel pela cicatriz!? Cus, que histria triste!
	Eu a tenho procurado desde ento, mas sem sucesso  acrescentou Perseu, dando um longo suspiro.
Quer dizer que a premonio que tivera estava certa?, Sam considerou. Ento, Perseu estava a procura de uma mulher que, sem sombra de dvida, deixara marcas em seu corpo e alma que iam alm da mera cicatriz! Ora, sem entender bem o porqu, j odiava a criatura maldosa com uma ferocidade que excedia qualquer explicao racional.
	Pouco a pouco o cerco foi se fechando em torno dela  Perseu continuou, impassvel.  Acho que cansou de fugir e, na verdade, tudo indica que foi a prpria Sofia quem ligou para meu escritrio e deixou o nmero de telefone com a sra. Athas.
A explicao era to chocante, to diferente do que Sam havia imaginado, que comeou a tremer, incapaz de se controlar. Oh, cus, chegara a pensar na possibilidade de Perseu ter ganhado aquela cicatriz num acidente de automvel, ou no mximo, numa disputa com um ladro, mas nunca sendo ferido pela mulher que amava!
	No entendo. Se ela o amava e se voc tambm a amava...
As feies morenas endureceram.
	Amava-a mais do que a minha prpria vida. Ns fizemos nossos votos de amor eterno em Delos, no templo de Apoio.
Ah, essa revelao no deveria deix-la to devastada! Perseu Kostopoulos no significava nada em sua vida! Era um estranho!, Sam tentou se controlar.
	Ento, por qu sua noiva o feriu?
	Acho que agora o papel j est bm  Perseu mudou de assunto, ignorando a pergunta ntima que acabava de lhe fazer para prestar ateno na tarefa que executava.
Sam prendeu a respirao enquanto ele retirava o papel amarelo do solvente e depois puxava a massa de cola que estava no verso deste. Pelo menos por enquanto, o assunto da noiva cruel estava encerrado e ambos se concetraram no pequeno papel.
Pena que a paz e a esperana tivessem durado to pouco! Ao notar que os nmeros anotados pela sra. Athas no estavam mais l, Samantha sentiu que o cho se abria sob seus ps.
Como se tivesse acabado de levar um choque, Perseu deixou o papel cair sobre a mesinha de centro.
	Si... sinto muito  Samantha murmurou, desolada.  Queria no ter entrado em seu escritrio na noite passada.
	 tarde demais para lamentaes, srta Telford.  As palavras eram to duras quanto rochas.  Onde est a cola de papel de parede? Vou reparar sua colagem.
	No  preciso, farei isto depois.
	No, no far. Esqueceu-se de que sua mo est ferida!?
Como um relmpago, ele foi at o pequeno corredor e revirou as estantes at encontrar o que queria.
Ao voltar para a sala, conseguiu reparar a colagem em um tempo recorde. Tudo que restou para Sam fazer foi passar o spray novamente para que o papel amarelo ficasse como novo.
 Obrigada  sussurrou, mas duvidou que Perseu a tivesse ouvido, pois ele j tirava o celular do bolso e comeava a conversar em grego com algum.
A qualquer momento, Perseu Kostopoulos iria embora de seu apartamento e ela nunca mais o veria, embora este tivesse sido o nico homem que a fizera sentir-se ansiosa por conhecer os prazeres de sua boca e a volpia do corpo msculo, pensou Samantha com tristeza.
Ento, como se fossem protagonistas de uma cena em cmara lenta, Perseu desligou o telefone e ergueu o rosto para encar-la.
"Bem, agora ele vai me dizer adeus e nunca mais nos veremos!", concluiu Sam, sentido o corao bater to rpido que mal conseguia respirar.
Mas ela estava enganada, muito enganada...

CAPITULO III

Surpreendendo-a, Perseu curvou os lbios 'no que parecia ser o arremedo de um sorriso e declarou:
	Acabei de pedir nosso jantar, kyria. Espero que goste de comida grega.
Samantha deu um passo atrs e encarou-o aturdida. Jantar!? Como Perseu poderia pensar em comer numa hora dessas!?
	O... o qu!?  balbuciou, confusa.
	Bem, depois do que a fiz passar hoje, acho que devo tentar me redimir. Alm do mais, estou faminto e aposto que voc tambm est.
	Estou sim, mas...
	Sem mas, mocinha, j est tudo arranjado  ele a interrompeu.  E, enquanto voc obedece as ordens mdicas e descansa, eu mesmo limparei toda a baguna que fiz por aqui.
	No, por favor!  Sam protestou.  No posso permitir que faa isto!
	No est em posio de me impedir. Alis, por falar em posio, durante o tempo em que voc estava na maca do dr. Strike tambm liguei para a Manhattan Cleaners e disse que a srta. Telford no iria trabalhar nos prximos dias porque sofreu um acidente de trabalho em minha empresa. O gerente foi muito compreensivo e me garantiu que no haveria problemas.
"Mas claro, quem ousaria discutir com Perseu Kostopoulos!?", Sam conjecturou, deixando-se cair no sof. Logo o viu recolher todos os restos de papis e comear a organizar a sala que parecia ter sido arrasada por um furaco.
Durante mais de meia hora, Samantha lutou contra as emoes conflitantes que a assolavam. Ao mesmo tempo em que desejava ardentemente que Perseu permanecesse a seu lado, queria v-lo longe dali, pois nunca antes se sentira to afetada pela simples presena de um homem. Jamais imaginara que poderia ansiar por ser beijada por um completo estranho como estava acontecendo agora.
Mal fechava os olhos e ficava devaneando como seria bom sentir os lbios carnudos do grego cobrindo os seus, ou como deveria ser maravilhoso experimentar o toque das mos morenas e grandes. Estava to imersa em sua prpria agonia, que, quando uns quarenta minutos mais tarde a campainha tocou, demorou para perceber o que estava acontecendo a seu redor.
Perseu, no entanto, agiu rpido com um felino e, aps olhar atravs do olho-mgico, atendeu a recm-chegada sem cerimnias.
	Kalispera, Arianna  Sam ouviu-o dizer.
A mulher de meia-idade, vestida de negro e trazendo uma xale amarrado nos cabelos, fez uma reverncia discreta e respondeu:
	Gia sas, kyrie Kostopoulos.  Ela carregava uma sacola plstica e, mesmo  distncia, Sam podia detectar o delicioso aroma que inundava a sala, dando-lhe gua na boca. Hipnotizada, passou a lngua pelos lbios. No conseguia se lembrar da ltima vez que uma comida havia lhe cheirado to bem.
	Efcharisto.
Exceto por aquela ltima palavra, que Sam deduziu significar "obrigado", no entendeu mais nada da conversa entre o belo sr. Kostopoulos e a mulher grega, que se despediu aps receber alguns dlares.
	Arianna  a melhor cozinheira de Nova York Perseu disse, assim que ficaram sozinhos.  Hoje iremos saborear um espetinho de carne moda com legumes e um assado de cordeiro gratinado com queijo e tomate. Para sobremesa teremos gaiato bouriko, uma massa folhada recheada de creme que tenho certeza voc vai adorar.
Sam arregalou os olhos azuis ao v-lo seguir at o balco que dividia sala e cozinha e estender uma toalha para que pudessem se alimentar. Contudo, no teve outra alternativa a no ser juntar-se a ele naquela refeio inesperada.
	Parece delicioso!  elogiou, encantada com o aroma e o colorido dos pratos que j estavam sobre o balco.
	E de fato . Mas, depois, quando chegarmos a Serifos e voc provar a comida de minha governanta Ariadne, ir entender o verdadeiro significado e gosto do que os gregos chamam de ambrsia.
O corao deu um salto dentro do peito de Samantha e o primeiro pedao de assado de cordeiro no chegou a ser levado  boca que se abria para receb-lo.
	O que quer dizer com "quando chegarmos a Serifos"?  interpelou-o, repousando o garfo sobre o prato descartvel.
Perseu estava degustando um enorme pedao de cordeiro e, sem ousar encar-la, replicou:
	Os deuses no estavam de seu lado hoje, kyria. Portanto, vai ter de me ressarcir por ter-me privado daquele nmero de telefone.
As palavras tinha sido proferidas com tanta casualidade que demorou um pouco para Sam entender o real significado da frase.
Ali estava ela, rezando para que Perseu no sasse de sua vida para sempre e agora parecia que ia ter seu desejo atendido da pior maneira possvel. Ora, mas havia um certo provrbio espanhol que dizia algo como: "Cuidado com o que voc pede a Deus, porque ele o concede na ntegra", e, naquele instante, Samantha compreendeu o valor e a prudncia da sabedoria popular. De repente, sentiu os nervos  flor da pele e perdeu o apetite.
	E bem provvel que minha ex-noiva tenha retornado a Serifos e esteja disposta a conseguir meu perdo para recomear de onde paramos  Perseu atalhou, esboando uma pequena careta.  Mas no  isso o que desejo, alis, para ser franco, agora acho que foi at bom no ter podido retornar a ligao. Sim, porque, levando voc comigo para Serifos, como minha adorada esposa, vai ser muito melhor e mais eloquente do que discutir com Sofia.
Samantha pestanejou, certa de que tinha entendido mal o que acabava de ser dito.
	Quando o perigo passar, thespinis, ser liberada e poder viver sua vida como quiser. Voc ter apenas de ser minha esposa durante o dia, suas noites sero livres.
Esposa durante o dia!? Cus, ser que Perseu pretendia mesmo us-la como um escudo para se defender da ex-noiva!? Aparentemente aquela mulher representava um grande perigo para sua paz de esprito, tanto que ele prprio usara a palavra perigo para ilustrar a situao.
No entanto, se tivesse um pouco de bom senso, deveria estar rindo histericamente da ideia ridcula de se tornar esposa de Perseu, ou quem sabe deveria atirar o espetinho de carne no rosto moreno como prova de sua indignao? Entretanto, em vez disso, tudo o que tinha vontade de fazer era correr o dedo por sobre
a cicatriz da face angulosa e confort-lo por aquela dor antiga.
Que tipo de mulher seria a noiva que o deixara to encantado a ponto de no se casar e continuar a procur-la durante vinte longos anos?
Perseu estaria realmente to preocupado com a possibilidade de se render ao feitio de Sofia que at se sujeitaria a um casamento sem amor, com uma completa estranha!?, perguntou-se atordoada.
Sam no conseguia entender um amor to intenso e destrutivo, mas, de repente, desejou ser o alvo do interesse desmedido de Perseu Kostopoulos.
	Ah, para algum que sempre tem uma resposta ferina na ponta da lngua, Samantha Telford, este seu silncio at que  -um bom comeo  argumentou o grego, trazendo-a de volta  realidade  Afinal, significa que no rejeitou minha sugesto logo de cara. Isso  bom, pois a outra alternativa que tenho a lhe oferecer  que me acompanhe at Serifos na qualidade de uma amiga mais do que ntima.
Sam enrubesceu.
	Voc quer dizer sua amante  corrigiu-o, irada.
	Sim, eu a trataria exatamente da mesma forma, porm, temo que a sociedade conservadora de meu pas no iria ser muito generosa para com voc, se  que entende o que quero dizer.
Ela temia que entendia mais do que gostaria. Viver com Perseu sob aquelas condies iria destruir sua reputao para sempre, uma vez que seu nome acabaria sendo estampado em todos os jornais como a nova amante do multimilionrio grego. No entanto, como a esposa adorada, teria uma recepo e uma aceitao totalmente diversa.
	Claro que, para tornar esta proposta mais interessante a seus olhos, estou preparado para realizar trs de seus maiores desejos na vida  Perseu completou, solene.   s me dizer quais so eles que cuidarei de atend-los o mais rpido possvel.
Sam franziu o cenho. Sentia-se to vaidosa e ousada quanto uma situao como aquela poderia permitir. Lentamente, o canto dos lbios rosados se ergueram, insinuando a sombra de um sorriso.
	Meus trs maiores desejos?repetiu, meio aturdida.
Perseu anuiu com um movimento de cabea, o que levou seus cabelos negros a carem sobre a testa altiva. De repente, a atrao que sentia por ele se tornou quase palpvel e Sam precisou fazer um esforo hercleo para no esticar o brao e acarici-lo com paixo.
	Isto mesmo, thespinis - concordou, capturando os olhos azuis nos seus.  E posso lhe garantir que quando dou minha palavra, nunca volto atrs.
Samantha acreditava piamente nisto. Bastava olhar para Perseu para confirmar que era um homem que honrava suas promessas, no importava o quanto estas lhe custassem.
	Bem, confesso que meus desejos so muito simples  ela respondeu, por fim.  Primeiro gostaria de ter dinheiro suficiente para subsidiar os jovens talentos que temos na universidade, para que eles no precisem ter dois ou trs empregos diferentes para se sustentarem enquanto no conseguem reconhecimento no mundo das artes.
	Feito  soou a concordncia, parecendo vir do alto do Olimpo.  Uma vez que eu j estava mesmo planejando comprar esta sua colagem para colocar no hall de entrada do meu edifcio, vou entrar em contato com o dr. Giddings e estabelecer um fundo vitalcio que poder ser administrado por uma comisso, e assim beneficiar os estudantes mais carentes.
A notcia de que Perseu pretendia comprar sua colagem quase a fez derrubar o prato de comida sobre si mesma. Porm, ao pensar no que o fundo, que ele se dispunha a criar, iria significar para seus jovens colegas, vibrou ainda mais.
	Faria mesmo isto?  interpelou-o, arregalando os imensos olhos azuis a ponto de torn-los to preciosos quanto duas gemas da mais pura turquesa.
	Pode apostar que sim! Qual o segundo desejo?
Samantha respirou fundo. O segundo desejo, na verdade, era o primeiro em sua lista de prioridades, mas como tinha duvidado das intenes de Perseu, no ousara proferi-lo. Ainda assim, s de lembrar em sua me, que trabalhara duro para ajud-la a conquistar seu sonho, sentiu os olhos se encherem de lgrimas. Precisou morder o lbio inferior para conter as emoes e dizer num fio de voz:
	Quando minha me morreu, no tive dinheiro
para mand-la de volta  Cheyenne, Wyoming. Ela nasceu l e gostaria de ter sido enterrada com o resto da famlia. Eu at desenhei uma lpide que pretendia colocar na capela da famlia, em sua memria, mas era caro demais para mandar faz-la.
	Feito  Perseu repetiu, de novo, em tom solene. 	Lembre-se de que tem apenas mais um desejo e, portanto, deveria ser algo para voc mesma e no para os outros.
"Seu terceiro desejo..." Sam o fitou veladamente. Ora, era s um jogo, nada mais. No tinha a inteno de levar aquele acordo absurdo adiante, mesmo.
	Bem, gostaria de ter tempo e disponibilidade financeira para criar designes especiais para tecidos, cermicas, azulejos e porcelanas, que pudessem ser comercializados no mundo todo  confessou, meio envergonhada.
	De acordo, seu desejo  uma ordem, srta. Telford.
	Com um movimento rpido, Perseu levantou-se e a livrou do prato de comida que ela mal tocara. Displicente, levou tudo para a pia, antes declarar por sobre os ombros largos:  Em minha vila, em Serifos, tem uma ala inteira que voc poder usar para trabalhar em suas obras de arte. Alis, a indstria domstica nas ilhas Cclades sempre foi o grande segredo de meu sucesso financeiro.
Samantha tinha a sensao de que estava sonhando e que este sonho logo acabaria. Como poderia ser real que um homem to rico e charmoso quanto Perseu Kos-topoulos lhe propusesse casamento e, ainda por cima, se dispusesse a realizar trs de seus maiores desejos!?
	Francamente, faz muitos anos que no vejo desenhos e objetos de arte to criativos e excitantes quanto os seus, thespinis. Meu faro de exportador me diz que ir fazer uma verdadeira fortuna com seu talento. Quando nosso casamento terminar, estar to famosa e rica que nunca mais precisar se preocupar com dinheiro.
Enquanto Samantha continuava tomada pelo mais completo estupor, ele voltou-se para encar-la com grande ateno.
	Estou pressentindo que h um quarto desejo oculto em seu corao, minha cara. E esta noite estou me sentindo benevolente o bastante para lhe conceder tudo o que pedir. O que me diz, vai aceitar minha proposta?
Samantha estremeceu. Sim, o quarto desejo que ele pressentira era a vontade que a assolava, desde muito pequenina, de um dia chegar vencedora diante do pai e mostrar-lhe que no precisara de sua ajuda para nada... e Perseu Kostopoulos era uma das poucas pessoas no mundo que poderia ajud-la a fazer isto.
No entanto, se era s esse detalhe que a perturbava, por que sentia uma vontade insana de ouvi-lo dizendo que a pedira em casamento porque se apaixonara  primeira vista e no por desejar defender-se da ex-noiva e dos sentimentos que o incomodavam mais do que a imensa cicatriz!?
"Deixe de infantilidade, Sam!", ralhou consigo mesma. "Perseu s est propondo este acordo porque tem medo de enfrentar a ex-noiva e descobrir que ainda a ama, sua tola! Pare de bancar a princesa encantada, pois sabe que nunca passar de uma gata borralheira!"
	h... no sei o que dizer  balbuciou, tropeando nos seus temores e nas palavras.  Preciso pensar a respeito. No  to simples assim. Voc est me propondo casamento e ns mal nos conhecemos!
	Pense, ento. Vou lhe dar algumas hora para isto. Irei para minha casa e voltarei s dez horas para saber o que decidiu.  Sem mais uma palavra, Perseu pegou a chave da porta de cima do balco e saiu do apartamento minsculo, deixando-a sozinha com suas emoes contraditrias.
Engraado, quando Sam fora ao escritrio da Kostopoulos embaixo de uma chuva torrencial, jamais lhe ocorrera que at o final do dia um homem absolutamente maravilhoso iria pedi-la em casamento. O que no era de todo uma surpresa, pois o amor sempre ficara relegado a segundo plano em sua vida cheia de luta e dificuldades. H muito tempo, a nica coisa em que se concentrava era na universidade e na possibilidade de construir uma carreira invejvel.
S que aquilo fora antes de conhecer Perseu Kos-topoulos, um grego maravilhoso, irresistvel, que marcara seu corao com suas iniciais desde o primeiro momento em que o vira. Sam sabia que no era uma atitude inteligente acreditar em amor a primeira vista, mas fora justamente o que lhe acontecera ao conhecer Perseu. No pudera impedir. Um sexto sentido a prevenia-a de que, se no pudesse t-lo por perto, sentir seu corpo e sua alma, ento no iria querer nenhum outro homem em sua vida.
As horas que se passaram foram as mais agonizantes da vida de Samantha e, quando s dez e quinze a campainha ecoou pela sala, ela levantou-se do sof de um salto.
Contudo, antes que pudesse atender, Perseu j abria a porta com a chave que levara consigo ao sair.
Imponente, ele entrou no apartamento como se tivesse todo o direito de estar ali. Parecia ainda mais bonito do que antes, vestindo um jeans escuro e um suter preto com gola olmpica.
Bastou aquela viso para faz-la estremecer. O que sentia por Perseu era forte demais para negar e, envergonhada, Sam desviou os olhos, ansiosa por esconder o que lhe ia na alma.
	Desculpe pelo atraso. Fiquei preso no trnsito.
As ruas de Nova York conseguem ser ainda mais difceis do que as de Atenas  reclamou, dando um passo  frente e ficando a poucos metros do corpo tremulo de Sam.  J decidiu se vai aceitar o acordo que propus?
Ela ergueu o rosto oval e o encarou com toda dignidade que conseguiu reunir.
	Sim... No ousaria exigir que atendesse aos meus dois primeiros desejos, mas preciso muito comear a trabalhar na carreira que escolhi; Naturalmente, farei questo de provar meu talento s pessoas que me entrevistarem. Mas preciso muito que algum me apresente ao mundo dos negcios. Se voc puder me auxiliar no contato com as companhias txteis com as quais tem negcios, seria uma grande ajuda e eu aceitaria o acordo. Eu... eu me casarei com o senhor, sr. Kostopoulos, se for um arranjo temporrio.
	Perseu  ele a corrigiu.  Espero que use meu nome de batismo daqui por diante.  Mal terminara de falar, murmurou uma frase em grego, que nem precisava de traduo, pois o brilho de triunfo que havia nos olhos cor de jabuticaba falava por si s.
Foi ento que Samantha caiu em si e percebeu a loucura que tinha feito. Oh, cus, e agora, o que iria acontecer!?, gemeu ela em pensamentos.
	Quando e onde ser sua formatura?  Perseu inquiriu, muito interessado.
Samantha pestanejou, sentia a boca seca e o ar lhe faltava. Ainda assim, era tarde demais para desistir.
	Na quinta-feira, na Washington Square  respondeu, lacnica.
	J terminou todos as provas e trabalhos?
	Sim.
	Otimo. Ento nos casaremos no dia seguinte  formatura. Voc precisa pedir demisso da Manhattan Cleaners e, enquanto isso, cuidarei de comprar-lhe um guarda-roupa novo para usar como convm  kyria Kostopoulos. Tambm contratarei algum para embalar seus mveis e guard-los num depsito.
As coisas estavam acontecendo rpido demais, e Sam mal conseguia raciocinar direito diante de tamanha presso.
	Se me disser onde sua me est enterrada, tratarei de arrumar tudo para a levarmos de volta ao Wyoming no avio da companhia, logo aps nosso casamento.
Um longo suspiro escapou dos lbios rosados de Sam e ela se acomodou no pequeno sof de dois lugares para resistir ao impacto de tantas mudanas acontecendo de urna s vez.
	Assim que chegarmos a Cheyenne, mandaremos fazer a lpide que voc desenhou e colocaremos no tmulo de sua me. Daremos a ela um enterro decente antes de partirmos para Atenas, o que deve acontecer dentro de mais ou menos duas semanas. Em Serifos voc poder descansar um pouco e pensar nos trabalhos que deseja fazer, sem se preocupar com dinheiro, uma vez que j ser a sra. Kostopoulos.
Samantha o fitou com olhar embevecido. No era de surpreender que Perseu fosse um homem admirado no mundo todo por sua eficincia. Em apenas alguns segundos, ele mapeara e organizara a vida de ambos com uma perfeio e riqueza de detalhes que chegava a assustar, portanto, tudo o que lhe restou fazer foi assentir com um movimento de cabea e se deixar levar pelo carisma e competncia do homem pelo qual se apaixonara com todas as suas foras.
Na semana seguinte, Perseu os manteve to ocupados com os problemas e detalhes da mudana, passeios  lojas para comprar-lhe o enxoval, idas  Universidade a fim de acertar o patrocnio aos jovens artistas, alm de visitas ao mdico para realizarem o teste pr-nupcial e retirar os pontos da mo ferida pela talhadeira, que o dia da formatura chegou sem que Samantha percebesse.
Desde a morte de sua me, ela imaginava que sua formatura seria uma experincia muito triste, pois no haveria ningum de sua famlia para assistir  coroao de seus esforos. Contudo, o que no esperava era se deparar com Perseu na plateia, postado entre pais e mes orgulhosos de seus entes queridos e aplaudindo-a quando pegou o diploma.
Uma alegria indescritvel contagiou o peito de Sam e seus sentimentos pelo atraente sr. Kostopoulos intensificaram-se ainda mais.
Entretanto, ela no ousou expressar o que lhe ia na alma, preferindo limitar-se a agradec-lo polidamente por participar de um momento to especial em sua vida.
Aps aquela cerimnia, os dois seguiram direto para a cobertura de Perseu e Sam dormiu no luxuoso quarto de hspedes dourado. Estava to exausta por causa da tenso e correria dos ltimos dias, que pegou no sono assim que colocou a cabea no travesseiro.
Na manh seguinte, por volta das dez horas, foi levada para um igreja ortodoxa grega na limusine de Perseu.
Ele vestia um elegante terno azul-marinho e camisa branca que acentuavam-lhe o porte elegante, alm de destacar o tom bronzeado do rosto de traos angulosos. Os cabelos negros tambm tinham sido cortados e penteados com um pouco de gel, o que valorizava a expresso sagaz dos olhos cor de jabuticaba.
Samantha, por sua vez, usava um vestido branco de renda, at os joelhos, que Perseu lhe comprara junto com o enxoval. Para a cabea escolhera um pequeno vu ornamentado por uma coroa de charmosas gard-nias. Embora no tivesse conscincia do fato, estava mais linda do que nunca, com os olhos azuis contornados pelo rmel escuro e a boca delineada por um batom da mesma tonalidade das flores que trazia nas madeixas douradas.
Quando perguntou a Perseu por que teriam um casamento religioso e no civil, ele explicou que o casamento teria efeito civil tambm, mas que no quisera realiz-lo em um local aberto pois precisavam evitar o assdio da imprensa, alm do qu, o padre, que era seu amigo, prometera que fecharia as portas da igreja e teriam toda a privacidade do mundo.
Ao perceber o grande interesse que seu casamento despertaria, Samantha ficou apavorada.
	Oh, no imaginava que seria assim!  exclamou, plida.  No sei o que fazer.
	No se preocupe, s precisar repetir meus gestos e tudo sair bem  tranqilizou-a o noivo num tom vibrante e profundo.  Depois do sermo tradicional do padre, ns usaremos uma guirlanda de flores de laranjeira e carregaremos uma vela acesa nas mos. Em seguida, acompanharemos o padre ao redor do altar e beberemos vinho na mesma taa. Neste ponto da cerimnia, voc j ser a kyria Kostopoulos.
Sam estremeceu diante da descrio do ritual grego que selaria sua unio a Perseu. Parecia-lhe um sacrilgio que uma cerimnia to mstica e romntica fosse realizada, pois o casamento deles no passava de uma farsa, que no duraria mais do que alguns poucos meses.
Talvez por isso, ao descer da limusine diante da igreja de arquitetura helnica, foi tomada por uma grande vontade de fugir, sim, fugir de Perseu Kostopoulos e do amor imenso e sufocante que sentia por ele. Mas era tarde demais!
Perseu deveria ter notado o que lhe ia na alma, pois, naquele instante, segurou-a firmemente pelo antebrao e a conduziu at o altar, onde o padre e duas testemunhas j os aguardavam.
Um dos presentes era o dr. Strike, que a cumprimentou com um sorriso cordial, o outro cavalheiro, o dr. Paulos, era advogado da Kostopoulos Export, que Sam j conhecia, pois Perseu fizera questo de apresent-la  pessoa que cuidaria de todos os aspectos legais daquela unio. Por certo, tambm seria o advogado que encaminharia a papelada do divrcio quando a farsa do casamento no fosse mais necessria.
Sam estremeceu. A simples hiptese da separao a trouxe de volta  realidade e roubou-lhe toda a alegria que estava sentindo por estar ali, diante do padre e de brao dado com Perseu, que, dentro de poucos minutos, seria seu marido.
Um leve suspiro escapou dos lbios rosados e, de repente, Perseu a trespassou com o olhar. Os dedos longos entrelaaram-se nos dela e pressionaram a mo delicada com mais fora do que seria necessrio.
	Voc, Samantha Telford, aceita Perseu Kostopoulos como seu legtimo esposo?  ouviu o padre indagar e s ento percebeu que no tinha prestado ateno nas primeiras palavras da celebrao.
	Si... sim, aceito  balbuciou. "Aceito de todo meu corao", completou mentalmente, pois apesar do motivos escusos que havia por trs de tal unio, amava Perseu mais do que a si mesma. Portanto, seu juramento no era uma mentira e sim a mais pura verdade de um corao apaixonado.
	E, voc, Perseu Kostopoulos, aceita Samantha Telford como sua legtima esposa, para am-la e respeit-la at que a morte os separe?
Um brilho intenso cruzou as ris negras de Perseu e ele a encarou como se estivesse, de fato, emocionado.
	Aceito  murmurou com rouquido, colocando a aliana de ouro no dedo anelar de Samantha.
Ento o padre deu incio ao ritual que Perseu mencionara no carro e, ao v-los beberem juntos o vinho numa reluzente taa de ouro, anunciou solene:
	Eu vos declaro marido e mulher, aos olhos de Deus e tambm de acordo com a lei dos homens... Pode beijar a noiva, Perseu.
Perseu afastou o discreto vu do rosto de Sam e aproximou os lbios carnudos dos dela.
Samantha no pde conter o desejo que pulsava em seu corpo e alma e retribuiu o beijo com mais ardor do que pretendia. Naquele instante, tudo o que desejava era que seu casamento fosse como todos os outros e que, na noite de npcias, o marido a tomasse nos braos musculosos, jurando-lhe amor eterno e amando-a com maestria at o raiar de uma nova manh.
Mas o bom senso a prevenia de que no podia nem deveria se iludir! Perseu era um mito e ela apenas mais uma mortal que ousara se apaixonar por aquele ser divino. Como nas tragdias gregas, era quase impossvel transpor a distncia que a separava do Olimpo ao qual seu adorado marido pertencia...

CAPITULO IV

Aps o casamento, os noivos tinham se-ido direto para o Wyoming, onde Perseu cuidara de enterrar a me de Sam no jazigo da famlia e de mandar esculpir a lpide que ela prpria desenhara.
Demonstrando uma grande sensibilidade, tambm a deixara rezar sozinha na capela e s depois a levou de volta ao Aeroporto de Cheyenne, onde embarcaram para a Grcia no avio particular da Kostopoulos Shipping and Export.
Aps dois dias que haviam chegado ao pas Samantha tinha de admitir que estava adorando tudo aquilo: o calor, a multido, os cheiros diversos, a cacofonia de sons produzidos pelos habitantes loquazes reunidos em charmosos cafs espalhados pelas praas da capital grega.
Quando, atravs do vidro fume da limusine, ela arriscou uma olhadela de despedida para Atenas, ouviu o marido comentar:
 Minha querida, ignore as palavras do arcebispo Kominatos que dizia que ningum poderia se despedir de Atenas se no fosse entre lgrimas; em vez disso, prefira se basear em Pricles que nos pediu para sempre nos lembrarmos de Atenas como ela realmente , com seus defeitos e qualidades, pois s assim podemos am-la e respeit-la com todo nosso corao.
	No consigo ver nenhum defeito  Sam protestou, apreciando cada experincia por que passava desde que haviam deixado o apartamento do marido, no centro da capital helnica.
	Ento voc  como esses raros turistas que conseguem ignorar os defeitos para poderem apreciar melhor as qualidades desta cidade milenar  Perseu argumentou, franzindo levemente o cenho.  Se quiser, podemos ir de helicptero para Serifos. E s me dizer que pedirei ao motorista que nos leve at o escritrio onde temos o heliporto.
Num gesto instintivo, Sam tocou o brao moreno e sentiu os dedos queimarem no ponto que unia seu corpo ao de Perseu.
	Oh, no, por favor! Quero muito fazer esta travessia de barco!  implorou.
	 uma jornada de quatro horas, sob um calor de quase quarenta graus, thespinis  fez questo de lembr-la.
	Mas eu amo a gua. E depois, o nico barco em que j estive foi naquele que faz a travessia da baa de Hudson, e, como voc sabe, no  mesma coisa. Aqui  a Grcia, meu caro!  exclamou com todo o entusiasmo de algum que nunca viajara na vida.
O riso divertido que emergiu dos lbios carnudos de Perseu produziu um efeito devastador sobre Samantha. Ora, ele at poderia consider-la uma ingnua, mas aquilo no iria impedi-la de viver aquele sonho com toda sua grandeza. Afinal, e se um dia acordasse e descobrisse que ainda estava em seu minsculo apartamento em Nova York, precisando lutar para sobreviver s dificuldades da vida que sempre levara!?
Sim, porque apesar de ter conseguido seu diploma, sabia que demorava pelo menos cinco anos para que um recm-fofmado conseguisse se firmar no mercado de trabalho. E Samantha Telford no tinha tanto tempo. Portanto, iria aproveitar todas as oportunidades que Perseu estava lhe dando para criar designes inesquecveis e tornar-se uma vencedora, prometeu a si mesma, lanando um olhar furtivo para o marido, que lia o jornal naquela lngua que para ela ainda era uma incgnita.
	No que est to concentrada, Samantha?  Perseu inquiriu, de sbito.
Sam chegara a pensar que ele havia esquecido que estava a seu lado.
	Ah, s estou tentando me lembrar de algumas palavras em grego  disfarou.  Junto com o caf da manh, sua empregada m trouxe alguns panfletos tursticos que me revelaram que estamos indo para o limani, onde embarcaremos no vapori.
Perseu inclinou a cabea morena para trs e deu uma gargalhada genuinamente divertida.
	Excelente, kyria Kostopoulos!  elogiou-a, bem-humorado.
Sra. Kostopoulos... Sam adorava seu novo ttulo e, em suas preces mais secretas, pedia a Deus que jamais tivesse de renunciar a ele.
	Fico feliz que esteja interessada em minha lngua nativa, thespinis. Agora, repita as palavras depois de mim e conseguir se fazer entender por meus compatriotas sem grandes problemas.
Ento, ao longo dos quase doze quilmetros que os separavam de um dos trs portos de Piraeus, Sam recebeu sua primeira lio de grego, dada por um mestre no assunto.
Assim, quando chegaram ao porto, j era capaz de dizer kalimera, que significava "muito obrigada", chero poli, que poderia ser traduzido por "como vai?" ou "muito prazer"; e tambm ya sas que era uma despedida como "at logo".
Todo este vocabulrio ela testou ao se despedir do chofer, que sorriu de orelha a orelha, ento a cumprimentou pelo esforo, antes de dizer alguma coisa em grego para Perseu, que sorriu deliciado. Sim, aquele foi um sorriso de prazer que o fez parecer mais jovem e bonito do que nunca.
Samantha no gostava de pensar em termos de idade e nos quatorze anos que Perseu tinha a mais do que ela, pois isto a fazia lembrar do passado de seu marido e do motivo pelo qual o casamento acontecera. Sim, o cime a corroa com uma voracidade impiedosa todas as vezes em que pensava na ex-noiva de Perseu e na adolescncia que haviam partilhado.
"Bem, a tal Sofia no o ter de volta!", prometeu a si mesma, pois j se sentia dona e protetora do marido, e se alguma mulher ousasse invadir seu territrio iria ter de enfrent-la.
Ento, de repente, as mos morenas de Perseu a trouxeram de volta  realidade. Com movimentos geis, ele a enlaou pelos ombros e a puxou para junto do peito viril.
Sam sentiu o corao disparar dentro do peito, o sangue correr rpido nas veias e as pernas tremerem feito gelia. O que Perseu estava fazendo!?
 Por que este ar to solene em uma linda manh de sol, minha querida?  sussurrou em seu ouvido, levando-a a estremecer.  O que est deixando seus olhos azuis to cinzentos quanto os dias de inverno em seu pas?
A presso suave dos lbios carnudos na pele macia do pescoo de Sam a estava levando  loucura.
"Acalme-se, Samantha, acalme-se! Ele j havia informado que deveriam fingir ser um casal apaixonado na frente dos outros. E apenas uma representao. Nunca esquea disso!", tentou apelar para o bom seno. "Seja sensata e reconhea que Perseu no a est levando a Serifos de barco porque deseja agrad-la, mas sim para que todos saibam que voltou para casa com uma esposa e que esta novidade chegue tambm aos ouvidos de Sofia..."
Mal tinha concludo o pensamento, um flash iluminou seu rosto e ela pestanejou. Antes de conhecer Perseu, sabia que o magnata grego era um homem muito assediado pela imprensa, mas no fazia a menor ideia do quo terrvel era tal assdio, pelo menos no at esse instante. A cada passo que davam, algum reprter tentava intercept-los, fotografando e perguntando sobre os planos futuros do casal Kostopoulos.
No entanto, naquele momento Perseu no os repeliu e pareceu at ficar contente em revelar que estava voltando para casa na companhia de sua jovem esposa.
	Para ser franca, Perseu  Sam sussurrou, fingindo ajeitar a gola da camisa creme que ele usava , estou assustada com todos estes reprteres.
Apesar do caos que os circundava, o aroma delicioso do sabonete que Perseu usara no banho daquela manh, invadiu-lhe as narinas. Sim, o calor acentuava ainda mais a fragrncia de limo mesclada  masculinidade natural que exalava do corpo moreno.
Como Perseu estava usando culos escuros, no podia ver-lhe os olhos. Mas, talvez, fosse at melhor assim, pois quando seus olhares se encontravam era como se uma verdadeira descarga eltrica passasse por todas as suas clulas, levando-a a se sentir mais feminina do que nunca.
Alheio ao conflito que a dominava, Perseu acariciou-lhe o contorno dos lbios com a ponta dos dedos.
	Com o tempo voc vai se acostumar a ser observada, ento deixar de se incomodar. Concentre-se em mim e relaxe. Quando chegarmos a Serifos seremos deixados em paz, thespinis.  Colocando a mo em suas costas, Perseu a conduziu por entre a multido e logo assumiam seus lugares junto aos passageiros do barco que fazia a travessia at a ilha onde ele nascera.
As bagagens j haviam sido despachadas antes de deixarem Atenas e, por isso, Sam no tinha de se preocupar com tais detalhes.
No instante em que o barco comeou a deixar o porto, ela segurou no parapeito do convs e apreciou a brisa suave que soprava em seu rosto. O dia prometia ser muito quente, com o sol brilhando altaneiro no cu de um azul intenso. Contudo, a temperatura era agradvel e o cenrio que os circundava to fantstico que excedia seu poder de descrio.
Perseu estava parado atrs dela, envolvendo-a pela cintura e repousando o queixo anguloso nas ricas madeixas douradas, que hoje Sam trazia presa num rabo-de-cavalo enfeitado por uma fita branca.
Nunca tinha usado branco antes e ficara surpresa ao vestir o discreto traje de linho, que estava entre o enxoval que Perseu lhe comprara, e descobrir que a cor lhe caa muito bem. Para completar a simplicidade do vestido de corte reto, escolhera sandlias de tirinhas brancas e pretas e um delicado brinco de prola que fora de sua me.
Sabia que estava bonita e que sua pele clara e olhos azuis chamavam a ateno daquelas pessoas bronzeadas e falantes. Contudo, a nica coisa que lhe interessava era apreciar a deliciosa proximidade de seu marido adorado.
Qualquer um que os observasse naquele instante concluiria que eram o tpico casal apaixonado em lua-de-mel. Alis, Samantha estava assumindo o papel de esposa devotada e apaixonada com tanta naturalidade e prazer, que, a certa altura, chegou a se questionar se no estaria enlouquecendo, sim enlouquecendo de amor.
Todavia, no reduto criado pelo abrao de Perseu, experimentava uma segurana e aconchego tamanhos, que no lhe importava mais nada no mundo.
 Perseu?
Sim?  Ele parecia to inebriado quanto ela prpria.
	Fale-me um pouco mais sobre sua ex-noiva, assim saberei o que me espera quando a encontrarmos. Afinal, uma pessoa prevenida vale por duas  tentou gracejar, mas no foi to bem-sucedida, j que a voz soou esganiada. Desde o casamento haviam falado sobre muitas coisas, mas nunca sobre o passado que resultara na cicatriz que marcava o lado direito do rosto bonito.
	Bem, no vejo Sofia h vinte anos. A garota que me feriu e depois desapareceu, hoje, deve ser uma mulher de quase quarenta anos.
	Voc est disfarando. No respondeu minha pergunta  acusou-o, com uma nota de tristeza a permear-lhe a voz melodiosa.  Por que ela o feriu?
Depois de um longo silncio, Perseu sucumbiu a curiosidade de Sam.
	Quando fizemos nosso votos de amor em Delos, acho que Sofia pensou que era apenas uma brincadeira de adolescentes. Eu era como o fruto proibido para uma garota rica, que, em s conscincia, jamais se casaria com o filho de um pescador.
Sam escutou-o calada, mas no pde evitar de sentir cime.
	Por isso, quando apareci no quarto de Sofia e insisti em lev-la comigo para longe da ilha, a fim de que pudssemos nos casar de verdade, ela entrou em pnico. No instante em que tentei abra-la e arrast-la para longe da casa rica de seu pai, Sofia fez o que julgou natural para se proteger do menino pobreto que a amava.
Sam meneou a cabea de um lado para outro.
	Ah, mas voc no iria for-la a ir embora se ela no quisesse ir. Sei que no iria!  Samantha sentiu-se impelida a defend-lo com todas as suas foras.
	Acho que no, mas Sofia no percebeu  Perseu murmurou, colocando os lbios junto s tmporas de Samantha.  As mulheres de meu pas tm um temperamento um tanto exaltado e ela era jovem, tinha s dezessete anos, portanto...
	Nada pode justificar um ato criminoso, Perseu!  inflamou-se.  Mas, pelo que vejo,  verdade que o amor pode transpor todas as barreiras, at mesmo aquelas erguidas pela crueldade.
	Ah, kyria Kostopoulos, o amor  cruel e tambm maravilhoso. Um dia, at mesmo voc ser vtima dessa experincia gloriosa, capaz de levar uma pessoa s alturas e tambm ao mais profundo crculo de inferno, como aqueles descritos por Dante Alighieri na Divina Comdia. Quando isso acontecer, entender bem o que digo  profetizou.
	No quero que acontea!  vociferou Sam, lembrando-se da prpria me, que sofrera toda uma vida por causa do louco amor que sentira por Jules Gregory.
Perseu a apertou com mais fora.
	Este  o problema. O amor no nos pergunta se queremos senti-lo ou no. Quando menos esperamos, invade nossas almas e ns nunca mais somos os mesmos depois de experiment-lo.
Graas aos cus, Perseu no podia ver as lgrimas que marejavam os olhos azuis.
	Voc nunca mais foi o mesmo, quero dizer, depois de ter se apaixonado?  indagou Sam, num fio de voz.
	No  veio a resposta que soou como um gemido de dor.	
Ela teve vontade de p-lo no colo e acarici-lo como uma me que protege um filho que chora.
	Ah, Perseu, queria tanto poder ajud-lo!	
Ento fique do meu lado. No me deixe perd-la de vista. Seja sempre voc mesma, no importa quais forem as circunstncias. Seja a mulher que, ao se julgar ofendida em sua dignidade de ser humano, me chamou de sr. Kofologos e deixou claro que no seria intimidada por meus milhes de dlares. Sam baixou o rosto envergonhada.
	Nem posso acreditar que tenha dito tantos de saforos a voc  confessou.
	Pois eu nunca irei esquecer  ele declarou, de encontro  curva do pescoo feminino.
Os beijos delicados a faziam pulsar de desejo. Ainda bem que estava segurando no parapeito, porque, do contrrio, no conseguiria se manter em p.
	Venha, vamos descer um pouco. Este ar fresco me deixou sequioso por tomar um pouco de caf da minha terra. Se no me falha a memria, no restaurante do barco poderemos apreciar um bom negraki tambm.
	O que  isto? Algum tipo de massa?  questionou Sam, curiosa.
	Bem,  um bolo de chocolate feito com rum e passas e coberto por uma deliciosa calda de chocolate cremoso.
	Eu estava certa, voc adora doces  concluiu ela, sorrindo candidamente.
	Como poderia saber dessa minha fraqueza, thespinis?  Perseu arqueou as grossas sobrancelhas e havia um brilho divertido no fundo dos olhos escuros.
	Observando, ora. Sempre pede sobremesa em todas as refeies e o ch que fez para mim quando voltamos do consultrio do dr. Strike tinha tanto acar que a colher quase ficou presa dentro da xcara.
O riso alto e descontrado que emergiu dos lbios de Perseu fez com que vrias cabeas se voltassem em sua direo.
Mas, ignorando a audincia inesperada, eles desceram ao convs inferior, abraados e gozando de uma cumplicidade surpreendente para pessoas que se conheciam h pouco mais de uma semana.
Era a mesma cumplicidade que brinda os amantes, mas eles no eram amantes, ou pelo menos ainda no. Eram sim um homem e uma mulher que haviam se unido por razes diferentes e que lutavam para conquistar a to proclamada felicidade...
Samantha deu um longo suspiro e baniu as consideraes de lado. Ainda sorrindo, deixou que Perseu a conduzisse para uma mesa junto  enorme vigia que mais parecia uma janela panormica.
Embora tivesse tomado um farto caf da manh, antes de deixar o apartamento que Perseu mantinha em Atenas, percebeu que ainda havia espao em seu estmago para um delicioso bolo de chocolate e aceitou quando ele pediu o negraki para acompanhar o caf grego.
Assim que levou a iguaria aos lbios, Samantha percebeu que a mistura de rum, passas e chocolate conferia uma sabor especial ao bolo e, por isso, no se surpreendeu quando viu Perseu pedir uma segunda poro.
Ele a fazia lembrar-se de um menino guloso, que no se cansava de degustar tudo o que mais gostava. De repente, Sam desejou poder ter pintado seu marido ao longo das vrias fases de sua vida, desde a infncia at a idade adulta. Como seria Perseu adolescente, antes de a maldosa Sofia ter ferido sua alma e seu rosto?, perguntou-se, sentindo uma pontada no peito.
Ento, ao notar que seus pensamentos comeavam a enveredar por um caminho ntimo e perigoso demais, procurou se concentrar em assuntos mais amenos.
	Estou vendo uma ilha mais adiante. Sabe o nome dela?  inquiriu, tentando soar casual.
	 Kea. Um dia desses levarei voc at l. O mar  to limpo e transparente quanto um cristal. Voc tem at a impresso de estar se banhando nos prprios raios de sol, tamanha a luminosidade dessas guas.
	Ah, que maravilha, fao questo de conhecer todas as ilhas!  entusiasmou-se.
No momento em que Perseu tirou os culos de sol e fitou-a com os olhos cor de jabuticaba, foi como se um sopro de vida lhe beijasse o rosto.
	Enquanto for minha esposa, thespinis, farei de tudo para lev-la a conhecer todas as belezas da Grcia.
	Est me fazendo uma promessa que vou cobrar, Perseu  tentou brincar, embora interiormente se sentisse vulnervel diante do homem que amava.  Quer dizer que conhece todas essas ilhas?
	Sim, sos as famosas Cidades. Foi aqui que comecei a ganhar dinheiro.
Respirando fundo, Sam arriscou:
	E como foi esse comeo? Quero dizer, j que supostamente somos casados, eu...
	No  uma suposio, Samantha, ns realmente somos marido e mulher  ele a corrigiu com firmeza.
 Fizemos um acordo e no pretendo romp-lo enquanto precisar de voc.
Samantha gelou. Odiava quando o lado sombrio e duro de Perseu se manifestava com tanta intensidade.
	Sei disso  aquiesceu, abaixando a cabea e fingindo se concentrar no prato de bolo.  Mas  que se tivssemos nos encontrado de outra maneira e se... se...
	Se fssemos amantes  ele concluiu zombeteiro.
	Tambm  concordou enrubescendo.  S que eu ia dizer  que se tivssemos nos casado por amor eu saberia tudo a seu respeito.
	Voc j sabe a respeito de Sofia  replicou com irritao.
	Sei disso, Perseu. S que no  o bastante. Preciso de mais informaes sobre voc, sua famlia, como comeou sua vida. Alis, nem sei se tem pais ou irmos que ainda vivem em Serifos!
O silncio perturbador que se seguiu f-la desejar ter permanecido calada, mas no era de seu temperamento se esconder atrs de uma mscara de polidez e, de repente, imaginou que talvez Perseu j estivesse arrependido de ter se casado com ela.
	No me lembro de meu pai.  Finalmente veio a resposta que Sam esperava.  Ele era um pescador que morreu no mar antes que eu tivesse um ano de idade.
At a Sam podia ver muita semelhana com sua prpria histria, afinal, no que lhe dizia respeito, o pai tambm morrera no dia em que abandonara sua me.
	Durante anos fomos apenas eu e minha me  Perseu continuou.  S que mame tinha srios problemas de sade, agravados pela pobreza. Logo que me entendi por gente, comecei a trabalhar de sol a sol para garantir nossa subsistncia. Quando juntei dinheiro suficiente, levei-a at o mdico da vila, que era vivo e s tinha uma filha pequena.
Secretamente, Sam se perguntou por que Perseu fizera questo de fornecer tal detalhe, mas deixou que ele prosseguisse.
	Minha me estava com uma anemia profunda, ainda assim, era uma mulher belssima. Os homens sempre a cortejavam, mas ela os repelia. O mdico comeou a trat-la, s que, aps nossa primeira visita, nunca mais quis cobrar por seus servios. Foi ento que percebi que, como os demais moradores da ilha, o doutor estava apaixonado por minha me.
Samantha sorriu levemente, encantada com aquela histria de amor que parecia transpor a sociedade de castas que sabia existir na Grcia.
	Acho que, naquela poca, eu era um tpico garoto enciumado da me e no queria v-la casada com outra pessoa. Comecei a detestar o dr. Lenidas e ele tambm no fazia nada para conquistar meu afeto, alis, quando minha me no estava por perto o doutor me tratava muito mal.
O idealismo de Sam, que at ento a fizera imaginar que estava diante de uma maravilhosa histria de amor, deu lugar ao bom senso. Aqueles acontecimentos deveriam ter sido muito dolorosos para Perseu.
	Por outro lado, eu admitia que nunca tinha visto minha me mais feliz. Percebi ento que no seria justo impedi-la de se casar. Um dia ouvi os dois discutindo por minha causa. Mame dizia que no se casaria com Lenidas se ele no me aceitasse como filho... Aps hesitar, o doutor concordou. Aos treze anos, fui morar na Vila Lenidas com minha me. E a casa rica me parecia um verdadeiro palcio quando comparada  aldeia de pescadores onde vivi toda a minha infncia.
Atendendo a um impulso, Sam esticou o brao e tocou a mo morena de Perseu, como se quisesse dar-lhe coragem para prosseguir com tal relato.
	Na frente de minha me meu padrasto me tratava bem. Quando estvamos sozinhos ele mal podia me tolerar e preferia me mandar para um quartinho nos fundos da manso, onde tambm ficaria longe de sua filha, Sofia.
Sofia era a filha do padrasto de Perseu!? Que coisa horrvel!
	Mas Sofia, ao contrrio do que o pai desejava, logo se sentiu interessada por mim e eu, nem preciso dizer, fiquei apaixonado pela adolescente perfumada e bonita que descobri naquela casa. Como sabia que Lenidas nunca permitira que me casasse com ela, resolvi que iria ficar to rico a ponto de faz-lo implorar por um favor meu. Foi aps tomar essa deciso que tentei convencer Sofia a fugir comigo e ela se defendeu provocando esta marca que trago em meu rosto.
A revelao de Perseu poderia muito bem ter sido tirada de uma das histrias da mitologia grega!, Sam concluiu, sentindo o corao apertado de cime e, ao mesmo tempo, de amor pelo grego maravilhoso que havia se tornado seu marido.
	O qu!'? No trouxe nenhum presente de casamento!?  gritara o rei Polidecto.
	Mas eu no tenho dinheiro!  exclamou o belo Perseu.
	Isto  o que acontece com os preguiosos que no fazem nada na vida  replicara o rei impiedoso.
Perseu encarou-o com uma fria quase mortal.
	Pois eu posso lhe trazer qualquer coisa que pedir Qualquer coisa que exista neste mundo, mas que no se compre com dinheiro e sim com coragem!  empertigara-se o jovem heri grego.
	Pois ento traga-me a cabea da Medusa.
	Feito!  Perseu gritara aceitando o acordo e par tindo para a luta.
E, como o Perseu mitolgico, aquele Perseu do sculo vinte tinha lutado contra as agruras do mundo e conquistado sua prpria fortuna, antes de voltar triunfante a sua terra natal, trazendo uma esposa consigo e pronto para enfrentar os inimigos que deixara em Serifos.
Ningum no mundo, alm de Samantha, sabia o quanto Perseu contava com ela para representar sua parte naquela histria de amor e dio.
	Sua me estar l para nos receber?  indagou, tremendo tanto que mal podia se controlar.
	No  veio a resposta impassvel.  Um ano depois de eu ter deixado Serifos, minha me pediu o divrcio e foi morar comigo em Atenas. Poucos meses mais tarde ela morreu em meus braos, de pneumonia.
Perseu deveria ter divisado as lgrimas nos olhos de Samantha, porque murmurou:
	No fique triste thespinis. Tudo  passado e os anos fazem com que as feridas cicatrizem.
	Eu sei... s que voc era to jovem para perd-la!
O que aconteceu com ela? O marido a maltratou?
	No. Lenidas era muito bom para minha me, s que ela no podia esquecer o que acontecera entre mim e Sofia.
	Sabe, eu j amo sua me mesmo sem ter podido conhec-la!  Sam exclamou com um soluo.
Um inesperado sorriso iluminou o rosto moreno de Perseu.
	Acho que voc tambm seria uma deliciosa surpresa para mame. Como a sade dela sempre foi muito frgil, nunca lastimei tanto sua morte como agora, pois seria maravilhoso que se conhecessem.
Lisonjeada pelo cumprimento, Sam, remexeu-se na cadeira desconfortvel.
	Talvez at seja bom que a sra. Kostopoulos no esteja viva para ver que seu filho no terminou com a mulher de seus sonhos.
Como nos dias em que um sol brilhante  substitudo por nuvens que prenunciam tempestade, assim o sorriso desapareceu dos lbios carnudos para dar lugar a uma expresso triste.
	Existem destinos muito piores do que este, minha doce Samantha.
Talvez at houvesse, mas Sam estava tocada demais pela histria de vida do homem que amava para poder aceitar tal verdade.
	Acho que preciso ir at o toalete  murmurou, comeando a se levantar. Sim, definitivamente preci
sava afastar-se um pouco de Perseu para poder raciocinar com clareza.
	Claro, mas no demore muito porque estamos passando por Kythnos. Voc vai adorar a paisagem pontilhada por moinhos de vento. Esta ilha, em particular, tem um grande significado para mim.
O corao deu um salto dentro do peito de Sam. O que seria desta vez?
	Por qu?  Tinha a premonio de que estava prestes a compartilhar de outra de suas lembranas da poca do namoro com Sofia e no queria ouvir, no poderia ouvir!
	Voc perguntou como comecei, e, como minha esposa, tem todo o direito de saber. Foi l, nas fontes termais de Kythnos, cujas guas radioativas so consideradas uma bno para muitos males, que tive uma inspirao e comecei a engarrafar a gua para vender aos turistas.
Sam pestanejou e voltou a se sentar. A curiosidade j tinha se apossado dela.
	Um conceito to simples, mas que ningum tinha explorado antes  Perseu continuou.  Com um nico carregamento de garrafas de gua que vendi, consegui dinheiro suficiente para comprar um barco. A esta altura, no vendia s gua termal, mas tambm peixes. Com o tempo, fui comprando outro barco, e outro e outro... Logo tinha uma frota inteira, alguns eram pesqueiros, mas a maioria deles eram destinados a levar os turistas a passearem pelas ilhas Cclades. No tardei em descobrir que os veranistas ricos me pagariam dez vezes mais do que o preo pedido se os levasse para ilhas virgens e lhes garantisse uma pescaria farta.
Mais uma vez, Samantha admirou-o pela inteligncia. Ora, sempre soubera que Perseu no era apenas um homem bonito! Ele era mais, muito mais!
	Em menos de cinco anos, j tinha escritrio em Atenas e cuidava de exportar os produtos que meu pesqueiro e meus barcos traziam de Serifos. Expandi os negcios e comecei a comprar tecido e cermica de Mikonos e Sifnos, alm dos bordados e artesanatos de Naxos. Os europeus e americanos se encantaram com minhas mercadorias e, antes dos trinta anos, eu j era o maior exportador da Grcia.
Sam estava admirada por ele ter sabido administrar to bem sua vida financeira, mas sofreu ao dar-se conta de que toda aquela fortuna nascera apenas porque Perseu quisera provar ao pai de Sofia que podia ser digno da moa rica.
	Agora, ningum no mundo sabe mais a meu respeito do que voc, thespinis  soou a voz de bartono, dando a entender que ele estava satisfeito consigo mes mo por ter-lhe contado tantos segredos.
	Obrigada, por confiar em mim, Perseu. No irei decepcion-lo  prometeu. "Nem se para isso for preciso negar todo o amor que sinto por voc!", completou em pensamentos.
	Ei, sra. Kostopoulos, olhe para c!  soou uma voz em meio a multido, e Sam se voltou ao mesmo tempo em que o flash do reprter iluminava o rosto oval.
Murmurando uma sequncia de palavres em grego, Perseu passou-lhe o brao em torno da cintura e empurrou-a para longe da multido que desembarcava no cas de Serifos, conduzindo-a at o carro que os aguardava mais adiante.
Assim que se acomodaram no interior do Mercedes prateado, ele a apresentou ao motorista Yanni e comentou:
	Bem-vinda a Serifos, seu novo lar, kyria Kostopoulos. Um outro dia eu a levarei para explorar e conhecer Livadi, mas, nesse momento, acho que um banho frio e uma bebida gelada ser mais adequado para nos refrescarmos um pouco.
Sim, Perseu estava certo. Com a temperatura prxima dos quarenta graus, no poderia pensar em nada melhor do que um bom banho e um drinque suave. No entanto, a simples viso da praia em forma de ferradura, circundada por pequenas casas brancas com telhado de sap e por delicadas palmeiras, a deixou ansiosa para conhecer melhor a paisagem de seu novo lar.
Do lado oposto ao mar, haviam colinas verdejantes, cujos vales deveriam ter servido de playground para Perseu durante toda sua infncia e isto, por si s, fez com que o lugar lhe parecesse ainda mais bonito.
Sam colocou a cabea para fora da janela do Mercedes, querendo ver tudo o que podia e ainda mais um pouco.
Sua casa  l em cima, naquela vila?
Ele sorriu.
	No. Panagia pode oferecer uma vista maravilhosa de Serifos, mas prefiro ficar perto da gua  explicou, bem-humorado.  H alguns anos comprei uma propriedade de frente para o mar, onde posso pescar e nadar sem ser perturbado. Contratei um arquiteto para projetar minha vila no estilo cclade e depois foi s mobiliar a meu gosto. Fica do outro lado da ilha, numa rea totalmente particular e discreta.
"Isto s pode ser um sonho. Quando voc vai acordar, Samantha Telford!?", ralhou consigo mesma, inebriada com tantas surpresas.
	H quanto tempo mora aqui, Perseu?
	Nunca morei na vila que constru. Nos ltimos vinte anos, me dividi entre Atenas e Nova York. Quando tinha uma folga, pegava um helicptero e vinha para c. Mas agora tudo mudou.
	Como assim?  quis saber, intrigada.
	Serifos  meu lar, minhas razes esto aqui e j que me casei  aqui que devo viver com minha famlia. Depois, a vila est pronta e s falta completar o projeto paisagstico. E como tive a sorte de minha esposa ser a grande artista que , a deixarei encarregada de cuidar disso.
	No estou entendendo  Sam pestanejou.
	Claro que est! Vai ser a paisagista responsvel pela vila, Samantha.
	Eu no posso!  protestou, assustada.  Nunca fiz nada do gnero, jamais trabalhei como paisagista ou mesmo estudei qualquer coisa a respeito de plantas.
	Mas tem muita experincia com texturas, cores e combinaes, minha querida,  o que basta. Testemunhei seu glorioso senso de esttica com meus prprios olhos quando estvamos em Nova York.
Glorioso!? Ser que ele fazia ideia de que ao proferir elogios como aquele a enchia de uma alegria que a deixava pronta pra explodir como se fosse um balo colorido e festivo!?
	Mas Perseu, eu...
	Voc prometeu agir como minha esposa  interrompeu-a suavemente.  Podemos ter trabalhos separados, mas  importante para mim que quando estivermos juntos possamos compartilhar de certos interesses e prazeres. Planejar o jardim vai fazer com que sinta que a casa  to sua quanto minha, querida.
	No creio que...
	Shhh!  silenciou-a colocando o dedo sobre seus lbios e passando a outra mo em torno dos ombros delgados, at traz-la para bem junto do corpo musculoso.  Se no ficar quieta, Yanni pode achar que estamos brigando, thespinis. E j que ele  um dos maiores fofoqueiros da ilha, temo que teremos de faz-lo pensar justamente o contrrio.
Como Perseu conseguiu fazer aquilo, Samantha nunca soube, mas, de repente, ela estava em seu colo e a boca carnuda cobria a sua numa carcia provocante.
	Sua boca tem o gosto e o perfume das madressilvas, cujas ptalas se abrem para serem aquecidas pelo calor do sol. H muito tempo que anseio em prov-la. Por favor, finja que eu sou o sol de sua vida e se abra para mim, thespinis  pediu ele roucamente.
Mas Samantha no precisava fingir. Perseu era mesmo o nico sol que j brilhara em sua vida, pois era o homem por quem estava perdidamente apaixonada.
Claro que j havia sido beijada antes, mas nenhum de seus poucos namorados haviam despertado nela o fogo incandescente do desejo que agora a consumia. A medida que se moldava  figura mscula de Perseu e sentia as mos morenas procurarem seus seios para toc-los com sensualidade, Sam percebeu que no eram apenas seus corpos que se tocavam, mas tambm suas almas que se entrelaavam em busca da comunho mais completa na vida de um ser humano. Seria este o paraso to aclamado pelos poetas?
Era bem provvel que fosse, mas ela no era a musa com a qual Perseu sonhava, e, se no quisesse sair ferida daquela histria, que tambm no era um mito, e sim pura realidade, deveria afastar-se de seu marido o mais rpido possvel.

CAPITULO V

	Tenho certeza de que, a esta altura, Yanni j est mais do que convencido de que somos um casal como outro qualquer!  Samantha declarou minutos depois, escondendo o rosto nos ombros largos e viris de seu adorado marido. Estava lutando para respirar, porque Perseu havia lhe tirado a fita branca dos cabelos e agora as madeixas douradas escorregavam por entre os dedos longos e hbeis.
	Pode ser que sim, minha ninfa dourada, mas para no restar qualquer dvida, fique exatamente onde voc est at chegarmos  vila  Perseu ordenou imperioso.
No entanto, fosse uma ordem ou no, Sam no poderia ter agido diferente. Seu corpo sensvel ainda estava preso nos braos musculosos de Perseu e ele acariciava-lhe as faces e os cabelos como se quisesse memorizar cada detalhe da figura delicada.
	Acho que s mesmo os deuses poderiam ter criado uma frmula to miraculosa como o brilho dourado de suas madeixas, thespinis.  O fascnio que impregnava a voz de Perseu s veio a aumentar a languidez que a dominava.
Sam estava no limite de suas foras. Sim, mais um segundo e esqueceria que seu casamento era uma farsa e que Perseu no a amava. Por isso, ergueu um pouco o rosto para lhe pedir que parasse de tortur-la, mas, quando o fez, seus lbios roaram na cicatriz que se estendia ao longo do maxilar anguloso.
	Di quando toco esta cicatriz, Perseu?  perguntou, movida por um impulso mais forte do que a razo.
	No. Mas se a cicatriz a incomodar, ou fizer com que sinta pena de mim, me submeterei a uma cirurgia plstica.
Zangada, ela gritou:
	Incomodar-me?! Como pode dizer isto!? Ser que no percebe que esta marca peculiar o torna mais atraente do que j ?  Droga! Pela milionsima vez, havia deixado que sua impulsividade trasse-lhe os sentimentos.  Quanto a sentir pena de voc, no poderia estar mais enganado, meu caro sr. Kostopoulos. Se eu fosse um homem, jamais me atreveria a desafi-lo para uma briga, pois pensaria que, se voc teve uma discusso com algum que resultou nesta cicatriz, ento o outro envolvido deveria ter ficado muito pior.
O som inebriante da gargalhada de Perseu ecoou no interior do Mercedes prateado.
	A possibilidade de voc ser um homem  to inconcebvel quanto a de um ser humano criar asas e voar, minha querida  caoou.  De qualquer forma, estou pensando em fazer uma plstica para me livrar desta cicatriz.
	A deciso  inteiramente sua  atalhou ela, dando de ombros. Sabia que no adiantaria discutir, alm do mais, no queria expor seu corao alm do que j fizera.
	Errado, thespinis. Daqui por diante planejo consult-la sobre tudo e espero que faa o mesmo comigo, do contrrio nosso casamento ser menos proveitoso e prazeroso do que poderia ser.
Embora Perseu no soubesse, tinha acabado de mencionar o que Sam julgava ser a receita bsica para um casamento dar certo: a presena do companheirismo e cumplicidade. Ainda assim, era preciso que os dois maiores interessados no assunto estivessem loucamente apaixonados um pelo outro, o que no era bem o caso...
 Parakalo, kyrie Kostopoulos  interrompeu-os o motorista, parecendo um tanto encabulado.
Samantha deu graas aos cus por Yanni ter se manifestado e, sagaz, usou a pequena interrupo do motorista para sair do colo de Perseu, embora este tivesse dado a impresso de estar relutante em deix-la se afastar.
S ento Sam percebeu que o carro havia parado diante de uma vila grega recm-construda. Um nova onda de calor a percorreu de alto a baixo. Quanto tempo Yanni teria esperado para alert-los de que j haviam chegado em casa?
"Ah, como Perseu fora esperto ao mant-la em seu colo para dar a impresso de serem um casal apaixonado!", conjecturou, ressentida.
O pior era que tinha sido muito fcil convenc-la a ficar ali. No era de admirar que ele fosse um empresrio to bem-sucedido, pois tinha uma capacidade invejvel de se aproveitar das oportunidades que surgiam diante de si.
Um grande desapontamento invadiu o peito de Sam e ela precisou se esforar para no demonstrar o que lhe ia na alma. Mesmo assim, a verdade era que no gostava de pensar em seu casamento como apenas mais um negcio na vida de Perseu, pois isto a fazia sentir-se como um objeto que poderia ser descartado a qualquer momento.
Sabia que, de certa forma, era aquilo mesmo que acontecia. Porm, seu corao apaixonado gostava de se iludir. E quem poderia culp-lo por isso?
Respirando fundo, baniu os pensamentos tristes de lado e saiu do carro ajudada por Perseu.
Quando ergueu os olhos e apreciou a casa branca, contornada por uma imensa varanda, que contava com o cu azul e o mar na mais intensa tonalidade de turquesa como pano de fundo, sentiu-se transportada para o paraso.
Nunca pensara que uma casa poderia ser to magnfica, integrando-se  paisagem da ilha grega como se fosse uma obra divina e no uma construo planejada pelos homens.
Ainda assim, movida pelo que Perseu dissera sobre planejar o jardim, imaginou a calmaria azul e branca invadida pela serenidade e delicadeza das sempre-vi-vas, pelo doce perfume de madressilvas e flores silvestres em tonalidades que iam do amarelo ao laranja, e tambm pela graciosidade dos brincos-de-princesa cor-de-rosa, vermelhos e amarelo-limo, que poderiam criar cercas naturais ou esgueirar-se pelas paredes brancas da casa.
Seria um jardim quase idlico, ou pelo menos um projeto que pudesse passar tal impresso, onde as cores se misturavam numa espcie de degrade para dar forma a uma obra-prima de tirar o flego do observador mais exigente.
Olhando da frente da casa at o local onde o mar beijava a praia de areias quase prateadas, Samantha franziu o cenho e tentou ordenar suas ideias. Sim, podia visualizar um jardim com formas geomtricas para combinar com as linhas dos padres estticos valorizados na Grcia antiga... Ah, uma maravilhosa miscelnea de oleandros azuis, pervincas, alfazemas e ameixas pretas, tudo formando um mosaico na mais perfeita ordem de linhas e retas.
As ideias lhe vinham com tanta rapidez e intensidade, que Samantha no via a hora de pegar sua prancheta para fazer um esboo do que tinha em mente. Nunca antes havia pensado em criar uma paisagem viva. Agora, no entanto, achava que no poderia haver nada mais maravilhoso do que lidar com a beleza e a serenidade das plantas.
Ento, quase sem perceber, virou-se para Perseu e indagou:
	Quando quer que eu comece a trabalhar no jardim?
Ele estava parado poucos metros atrs e a segurava pelo brao num gesto possessivo. De repente, abaixou-se e roou os lbios carnudos nas faces alvas de Sam, que foi pega de surpresa pelo gesto sensual.
	Parece que finalmente se rendeu a minha sugesto, thespinis. J tinha percebido que estava pensando
no assunto, pois parecia estar a milhas de distncia de mim.
"Est enganado, Perseu, desde o primeiro momento que te vi, nunca mais pude ficar a milhas de distncia porque voc entrou to fundo em meu corao que j impregnou todo o meu ser!", Samantha retrucou mentalmente.
	Mas, respondendo a sua pergunta, amanh voc pode s dedicar ao jardim. Agora iremos almoar e depois descansaremos. No final da tarde nadaremos um pouco e prometo que ser uma experincia inesquecvel, minha querida.
Subitamente, Samantha sentiu-se zonza, pois ele inclinou-se, passou um brao sob seus joelhos e a pegou no colo, carregando-a como faz qualquer recm-casado orgulhoso de sua conquista.
	Esta  a Vila Dnae, kyria Kostopoulos, sua casa de agora em diante  Perseu murmurou, ento cobriu a boca de Sam com a sua, bloqueando os raios de sol e silenciando o protesto que ela ameaava verbalizar.
Yanni tinha seguido na frente e abria a porta da casa para que Perseu entrasse no hall com a noiva nos braos, exatamente como mandava a tradio.
Novamente, Sam se pegou desejando que Perseu Kostopoulos fosse seu marido na real acepo da palavra, para que pudessem consumar os dizeres do padre sobre serem marido e mulher.
	Dnae era o nome da me do Perseu mitolgico  ela falou, como se pensasse em voz alta.
	Tem toda razo, querida. Parece que est bastante familiarizada com os mitos de Serifos, no?
	Acho que estou  Sam admitiu, surpresa com o sorriso que sua resposta provocou.
	Que timo, porque pretendo lev-la para conhecer a surpreendente formao rochosa que lembra as figuras de Medusa, Perseu e Dnae.
De repente, uma enorme alegria se apossou dela ao imaginar que iria conhecer um lugar to excitante, ainda por cima na companhia de Perseu.
	O nome que deu a esta vila  uma homenagem a sua me, certo?
Um longo suspiro escapou dos lbios carnudos.
	Sim, como sempre voc est certa, thespinis  murmurou e, lentamente, colocou-a no cho. Num gesto corts, conduziu-a at uma imensa sala de visitas, decorada com sofs e almofadas em tecido azul e branco. Uma das paredes do aposento tinha sido substituda por uma imensa porta de vidro que dava vistas para o mar de inigualvel beleza.
	Sua observao foi muito astuta, minha querida esposa  Perseu voltou a se fazer ouvir.  Na verdade, prometi a minha me que um dia regressaria a Serifos e construiria o lar que ela sempre mereceu ter. Infelizmente, mame morreu antes que eu pudesse cumprir essa promessa.
Sam sentiu-se impelida a consol-lo.
	Tenho certeza de que, de onde estiver, a sra. Kostopoulos acompanhou seu progresso com grande orgulho, Perseu. Alguma coisa me diz que neste exato momento, sua me o est abenoando por ser um filhe to amoroso.
Perseu franziu o cenho.
	Acredita mesmo que haja vida aps a morte?  interrogou, arqueando as sobrancelhas escuras.
	Claro que sim! Se no houvesse uma continuidade em outra dimenso, Deus no teria se dado ao trabalho de construir algo to maravilhoso como o mundo em que vivemos.
	Se continuar a falar com tanta convico, acabar me convencendo de que est certa a respeito da vida eterna  ele brincou.
	Pois em minha opinio, acreditar nesta verdade s ir lhe fazer bem, Perseu.  assim que encontro foras para suportar a saudade que sinto de minha me, pois sei que um dia iremos nos reencontrar.
	E quanto a seu pai?  Perseu indagou com tanta suavidade, que era bvio que vinha ensaiando a pergunta h muito, muito tempo.
Em pnico, Sam se desvencilhou das mos morenas e seguiu para junto de um dos sofs que enfeitavam a sala aconchegante.
	Prefiro no falar sobre isso, se no se importa.
	Ora, minha menina dourada, voc sempre evitar falar a respeito de seu pai. Mas no importa, o dia que eu ganhar sua inteira confiana, ir me contar tudo. Por enquanto, permita-me apresent-la a minha governanta, Ariadne.
Sam virou-se, surpresa. No havia percebido que tinha mais algum na sala.
	Ariadne  esposa de Yanni  Perseu explicou.  Eles tomam conta da vila para mim.
	Bem-vinda a Serifos, kyria  saudou-a a mulher de cabelos escuros que falava um excelente ingls.
	Obrigada, Ariadne. Eu no esperava que falasse to bem a minha lngua. Espero que possa me ensinar um pouco de grego.
Ariadne olhou para Perseu em busca de sua permisso, e, depois de obt-la, assentiu:
	Ser um prazer, kyria.
	Efcharisto  Sam tentou pronunciar a palavra da maneira como Perseu a ensinara.
	No precisa agradecer, senhora. O almoo j est pronto e poderei servi-lo assim que desejarem  informou a governanta com um sorriso de satisfao.
	Como se diz almoo em grego?  Sam perguntou, entusiasmada.
	Messimergiano  a mulher grega respondeu.
Sam fez o possvel pra repetir o som e ganhou um sorriso de aprovao -do marido e da governanta.
	Por favor, espere alguns minutos, Ariadne  Perseu se fez ouvir.  Vou mostrar nossa sute a minha esposa e a deixarei tomar um banho para se refrescar antes de nos sentarmos para almoar.
	Nossa sute!?  Sam repetiu assustada.
	Relaxe  murmurou ele, conforme a levava da sala at o imenso corredor que dava acesso aos quartos e tambm  sute principal da Vila Dnae.  Antes de voc me acusar de no estar cumprindo nosso acordo, deixe-me lhe assegurar que o quarto que ocuparei se liga  sute atravs de uma porta de comunicao. Se quiser, poder tranc-la e me manter afastado como se eu fosse um temvel bicho-papo.
A maneira como ele falou a fez sentir-se uma completa idiota.
	Ora, confio em voc e sei que no preciso trancar nada!  retrucou Samantha com uma segurana que no condizia com o brilho assustado que pairava nos olhos azuis.
Diante de tal reao, o rosto anguloso de Perseu se transformou numa mscara de frieza.
	Talvez no devesse ser to confiante, querida. No  muito prudente provocar os Deuses. No nessa ilha onde o mito e a realidade se confundem e  impossvel dizer onde comea um ou termina o outro...
Petrificada com a implicaes das palavras de Perseu, assim que se viu sozinha, Sam rumou para o banheiro e mal prestou ateno na decorao charmosa do enorme sute, no centro da qual destacava-se uma cama revestida em patina cor de manteiga.
A decorao era de extremo bom gosto, embora no fosse ostensiva, e ganhava um toque especial graas  porta-balco que dava acesso a um terrao, logo atrs do qual estendia-se a areia prateada e o mar azul-turquesa.
Alis, eram justamente as tonalidades de azul que ornamentavam o piso e os azulejos do banheiro, mescladas a peas brancas desenhadas com motivos gregos.
Entrando no chuveiro, Sam concluiu que era uma pena que a me de Perseu no estivesse ali para ver as conquistas do filho. Contudo, mais trgico do que a morte prematura da sra. Kostopoulos era o amor que havia unido seu nico filho  bela Sofia. Como aquela pobre mulher deveria ter se sentido culpada ao ver a cicatriz nas faces angulosas de Perseu!
E tudo por causa de Sofia. Sim, Sam pensou com desapontamento, at mesmo sua vida j fora afetada; pois a nica razo de ter se tornado a esposa de Perseu, e agora estar em Serifos, fora ter usado o papel com o nmero de telefone de Sofia Lenidas em sua colagem.
	Se no quiser ser magoada por causa desta histria,  bom nunca se esquecer disto, Samantha Telford!  falou para si mesma,  medida que saa do banho e mirava-se no enorme espelho que havia no banheiro. Com movimentos rpidos, pegou a toalha rosa, que estava pendurada no cabideiro dourado, e esfregou-a pelo corpo como que para se livrar dos pensamentos incmodos.
Quando comeou a voltar ao quarto, ouviu o telefone tocar com insistncia, mas no se dignou a atender, pois sups que fosse uma ligao de negcios para Perseu.
Sentindo-se imbuda de um novo nimo aps o banho, escolheu um dos vestidos de seda florido em azul e amarelo, que viera junto com a bagagem que fora despachada de Atenas e comeava a prender os cabelos num coque baixo quando ouviu uma suave batida na porta.
	Entre  disse, imaginando que se tratasse de Perseu.
	Kyria Kostopoulos?
	Sim, Ariadne  respondeu, encarando a gover nanta com ar de surpresa.
	Tem algum querendo falar com o sr. Kostopoulos no telefone, mas ele saiu para fazer uma caminhada antes do almoo. A mulher disse que, como o patro no est, gostaria de falar com a senhora mesmo.
Sam meneou a cabea, confusa.
 Ela no se identificou?  quis saber, estremecendo.
	No, s disse que era um assunto urgente.
Seria Sofia? Diante da simples possibilidade de falar com o grande amor da vida de Perseu, Sam sentiu a boca seca.
	Mas eu no falo nada em grego, Ariadne. Como vou poder conversar com esta pessoa?  raciocinou, querendo evitar o que sabia ser inevitvel.
A governanta deu de ombros.
	Parece que ela fala ingls, kyria.
O olhar de Samantha recaiu sobre o telefone que ficava no criado-mudo. Quando perguntara a Perseu como poderia ajud-lo, ele dissera que seria ficando sempre a seu lado, mas nem sequer se dignara a instru-la sobre o que fazer se, de repente, desaparecesse no momento em que mais precisava de sua companhia!
Seria uma coincidncia que Perseu tivesse sado para uma caminhada justo no instante em que Sofia lhe telefonava? Ou ele teria sado de propsito, porque sabia que sua paixo grega iria telefonar assim que fosse informada de sua chegada na ilha?
Sam no sabia mais o que pensar e, sem alternativa, aproximou-se do criado-mudo e pegou o telefone, rezando para que no fosse quem imaginava.
	Al  atendeu, aps pigarrear levemente. Aqui  a sra. Kostopoulos.
	Obrigada por atender meu telefonema  agradeceu sua interlocutora, num ingls carregado de sotaque.  Meu nome  Sofia Lenidas. Sabe quem sou?
Sam segurou o aparelho com mais fora do que seria necessrio. O que deveria dizer para aquela mulher? O que Perseu gostaria que dissesse?
	Sim, eu sei. Meu marido j me falou da famlia de seu ex-padrasto  preferiu usar de diplomacia.  Parece que na adolescncia vocs dividiram a mesma casa porque seus pais eram casados, certo?
O silncio opressor que se seguiu fez Sam perceber que suas palavras tinham ofendido a outra mulher.
	O que Perseu e eu dividimos, minha cara, foi muito mais do que uma casa. Foi um grande amor que pulsa at hoje em meu corao.
O atrevimento e o tom apaixonado de Sofia a assustou ainda mais, fazendo-a sentar-se na cama a procura de apoio.
	Tentei encontr-lo em Nova York, s que Perseu nunca retornou minha ligao. Mas, depois do que aconteceu h vinte anos, no o culpo por isso!  Sofia exclamou emocionada.
Samantha sentiu-se mal ao pensar que, mesmo sem querer, tinha sido a responsvel por tal desencontro.
Escute, sra... Kostopoulos, o que tenho a tratar com Perseu  uma questo de vida e morte  voltou a insistir Sofia.  Ele precisa ouvir minhas explicaes sobre o que houve entre ns, mesmo que j tenha se passado vinte anos. Para mim, foram vinte anos de tortura. Mas a urgncia desse encontro  que meu pai est morrendo e nos pede para trazermos Perseu at aqui. Por favor, diga-lhe que estou na Vila Lenidas e que preciso muito lhe falar. Desculpe se vou ser indiscreta, mas nunca esqueci Perseu e espero que ele venha o mais rpido possvel.
Sam respirou fundo.
	Vou transmitir seu recado, kyria Lenidas, mas no posso garantir que Perseu atender seu pedido.
	Deus a abenoe por isso, minha cara. Obrigada.
A linha ficou muda e Sam recolocou o aparelho no gancho, completamente aturdida com o tom desesperado que detectara na voz de Sofia.
Sim, a mulher grega ainda amava Perseu e o famoso sexto sentido feminino a prevenia de que, uma vez que ele ouvisse as explicaes de seu grande amor, iria sucumbir  paixo que ainda pulsava em seu peito.
Ao dar-se conta disso, Samantha sentiu-se to devastada que nem percebeu que Perseu acabava de entrar na sute.
	Algum problema?  Ele vestia um short branco e camiseta plo preta, e Samantha engoliu em seco diante da figura mscula e atraente.
	Problema?  repetiu, confusa.
	Sim, com quem estava falando ao telefone?
	Com Sofia  revelou, tentando no demonstrar o cime que dilacerava seu peito.
Uma expresso furiosa se apossou do rosto moreno e Perseu cerrou os punhos como se tentasse controlar o gnio explosivo.
	Por que no deixou que Ariadne anotasse o recado!?  bradou, irritado.
	Porque foi sua governanta que veio a minha procura e disse que tinha algum que gostaria de falar comigo.
	Sofia no perdeu tempo!  ele exclamou com  uma ferocidade que chegou a assust-la.
	Antes que voc diga qualquer coisa, deixe-me transmitir-lhe um recado  interrompeu-o, levantando-se da cama e encarando-o com os reluzentes olhos
azuis.  Sofia revelou que o pai est morrendo e quer v-lo, Perseu.
Ele inclinou a cabea de lado e franziu o cenho.
	Morrendo!?  repetiu, incrdulo.
	Sim, Sofia tambm disse que precisa lhe dar explicaes sobre o que houve h vinte anos e... e que nunca o esqueceu. Parecia sinceramente emocionada, Perseu.
Os olhos escuros brilharam perigosamente.
	Se fosse voc, iria procur-la agora mesmo  completou Samantha, embora sentisse o corao sangrar s em pensar no reencontro de seu marido com aquela que ele tanto amava.
	No posso  soou a resposta lacnica.  Agora  melhor almoarmos porque vou ter de ir at Naxcos para resolver um problema inesperado, mas estarei de volta at a hora do jantar e poderei lev-la para nadar um pouco, thespinis.
Antes que pudesse dizer ou fazer qualquer coisa, Sam se viu puxada para a sala de refeies e, ainda que os alimentos servidos por Ariadne estivessem deliciosos, no conseguiu apreciar o sabor, pois estava muito preocupada com a expresso taciturna de Perseu.
Ento, mal haviam terminado a refeio ele desapareceu e a deixou sozinha para explorar a casa que recebera o nome de sua me.
Como era de se esperar, o resto do dia foi um verdadeiro desastre para Sam. No conseguira dormir  tarde e nem tampouco relaxar. Seus pensamentos estavam todos voltados para uma possvel reconciliao entre Perseu e Sofia, e aquilo era doloroso demais para uma mulher apaixonada como ela.
O sol j comeava a baixar no horizonte azulado quando Perseu voltou para casa e insistiu para que nadassem juntos na enseada que havia diante da vila.
A princpio Samantha resistiu, mas depois acabou cedendo e acompanhou Perseu com certo prazer.
Sim, ele havia trocado a roupa de passeio por uma sunga preta e agora todos os msculos estavam em evidncia, levando-a a imaginar como seria bom toc-lo com toda intimidade que uma esposa de verdade toca seu marido.
Perturbada com o rumo de seus pensamentos, Samantha mergulhou na gua tpida e nadou at consumir todas as suas foras.
Perseu nadou a seu lado e, s vezes, fitava-a com um brilho to intenso no olhar que chegava a assust-la.
Com o passar da horas, a lua comeou a substituir o sol e os raios prateados incidiram sobre eles, atuando como se fosse um habilidoso iluminador que sabia exa-tamente quem eram as estrelas daquele espetculo.
Samantha boiou um pouco e ento ficou em p ao lado de Perseu, a fim de admirar o cair da noite sobre o mar da Grcia. Um sorriso deliciado brincou em seus lbios rosados.
 Quando sorri assim, me faz lembrar do quadro de uma mulher que tenho em meu quarto  Perseu comentou, encarando-a com grande ateno.  Notei a semelhana no momento em que entrou em meu escritrio. Ela tem os cabelos dourados como os seus, s que mais longos e encaracolados nas pontas, e est acorrentada em uma rocha.
Ento deve ser Andrmeda, a mulher que Perseu resgatou do monstro do mar  brincou Samantha, bem-humorada por ter a chance de apreciar a paisagem idlica.
Perseu concordou com um gesto de cabea quase imperceptvel.
	A mulher do retrato  quase to bonita quanto voc, thespinis.
Diante do elogio, ela mergulhou na gua para esconder o rubor que tingia suas faces e depois emergiu a alguns metros de seu charmoso marido.
	Quem foi o artista que pintou o quadro?  perguntou, ansiosa por fazer alguma coisa que quebrasse a magia do momento.
	Jules Gregory. Ele no era muito conhecido quando esteve em Serifos. Eu comprei o quadro h uns dezesseis anos e o pintor ainda no era um dos mais cobiados pelos colecionadores de arte. Mas, particularmente, acredito que a tela que tenho de Jules  sua obra-prima. Talvez porque ele a tenha pintado quando estava so frendo por ter perdido o grande amor de sua vida.
Diante de uma revelao to inesperada, Sam precisou fazer um esforo sobre-humano para manter as aparncias, embora, interiormente, seus sentimentos estivessem em polvorosa. Quer dizer que Perseu tinha um quadro de seu pai? Cus, como mundo era pequeno!
	O que h?  Uma ruga vincou a testa altiva de Perseu e, com um movimento rpido, ele se aproximou de Sam e a segurou pelo brao.  Est com cibras?
	Sim  mentiu, grata por ter uma desculpa atrs da qual pudesse se esconder. Acho que nadei demais, no estou acostumada com exerccios e meu corpo deve ter se ressentido.
	Ento, vamos sair da gua  sugeriu, pegando-a no colo e carregando-a de volta para casa sem parecer nem sequer incomodado com o peso do corpo jovem.
Sana prendeu a respirao e fechou os olhos para no trair seus sentimentos.
No instante em que Perseu a colocou na banheira e ligou a torneira, Samantha sentiu o sangue correr rpido nas veias e a pele queimar como se tivesse sido tocada pelo fogo. O fogo que incendiava seus corpos cobertos apenas pelos trajes de banho.
O de Samantha era um minsculo biquini azul, comprado por Perseu em Nova York, que revelava mais detalhes das curvas femininas do que ela gostaria.
	O... obrigada por tudo, Perseu.  Sua voz falhou pois os olhos escuros vagavam por seu corpo e faces com uma voracidade impressionante.  J estou bem 	murmurou, puxando a toalha cor-de-rosa e tentando enrolar-se ali.
	No acredito  Perseu murmurou, ajoelhando-se a seu lado e tocando sua boca com a ponta dos dedos.
	Estou vendo a maneira como seu sorriso desapareceu de uma hora para outra e o brilho assustado que paira em seus olhos da cor do mar, minha querida. O que houve?
Samantha sentiu-se ainda mais tocada pela proximidade e pela ternura que permeava a voz profunda.
	Oh, acho que  apenas cansao da viagem, no consegui dormi  tarde e devo estar precisando relaxar.
	Neste caso, nada melhor do que um bom banho de espumas, kyria Kostopoulos  Perseu receitou com ares de entendido e, antes que Samantha pudesse fazer qualquer coisa, ele j lhe tirava a toalha das mos e fazia com que entrasse na banheira de loua branca.
Com muita agilidade, Perseu colocou algumas gotas de espuma de banho com perfume de jacinto, pssego e rosas e, tirando-lhe a parte superior do biquini, comeou a massagear-lhe os ombros com uma delicadeza impressionante.
Se Samantha o desejara antes, agora, ento, estava ficando impossvel se conter. A cada movimento dos dedos longos e sensuais, tinha a impresso de que iria explodir de prazer, exatamente como acontecia com as bolhas de espumas perfumadas que estouravam no ar.
Ento, de repente, as mos enormes escorregaram de seus ombros para os seios rijos e firmes e um longo gemido escapou dos lbios carnudos de Perseu. Lentamente, ele escorregou para dentro da banheira e a abraou com paixo.
Suas bocas se encontraram e o beijo foi repleto de urgncia e da necessidade que um tinha do outro.
De sbito, as carcias no respeitavam mais os limites dos trajes de banho e, antes que Samantha se desse conta do que estava acontecendo, j sentia a masculinidade pungente de Perseu tocar a parte superior de suas pernas.
Todo seu corpo ansiava por senti-lo por inteiro, como se fossem um s ser, uma s respirao, um s prazer, porm, uma vozinha vinda do fundo de sua alma teimou em lembr-la de que no poderia fazer amor com Perseu Kostopoulos, no quando era Sofia a mulher que ele amava.
Sim, antes de se interessar por outra mulher, seria mais justo que Perseu procurasse a moa grega e resolvesse todos os assuntos que tinham ficado pendentes durante vinte longos anos.
 No, Perseu!  repeliu-o com todas as suas foras, embora interiormente quisesse am-lo com toda a voracidade de uma mulher apaixonada.  Nosso acordo era para que fosse sua esposa apenas durante o dia, est lembrado?  atalhou com voz intercalada pela emoo.
Por uma frao de segundo, Perseu pareceu no entender o que estava acontecendo, ento, de repente, como se tivesse sido mortalmente ferido, ele se levantou e saiu da banheira.
 Tem razo, kyria. Prometo que no vai mais acontecer, no se voc no quiser  murmurou, antes de girar nos calcanhares e sair do quarto to rpido quanto uma rajada de vento.
"Mas o problema  que eu quero, Perseu. Quero muito, mas primeiro ter de encerrar definitivamente o captulo de sua histria com Sofia!"

CAPITULO VI

Quando Samantha finalmente acordou, percebeu que o sol estava quase no centro do cu, o que significava que tinha dormido mais de doze horas seguidas e tambm justificava por que seu estmago estava roncando.
Jogando as cobertas para longe, ela levantou e se olhou no espelho. As plpebras estavam to inchadas que quase escondiam o tom azulado das ris.
Se Perseu a visse assim, saberia que tinha andado chorando. Portanto, no poderia correr o risco.
Aps pensar um pouco, Sam decidiu usar os culos escuros para disfarar o quanto chorara na noite anterior. Rapidamente, vestiu um short caqui e camiseta verde-gua, depois prendeu os cabelos dourados num rabo-de-cavalo e s ento colocou os culos e deixou a sute, rumando para a cozinha a fim de tomar seu desjejum.
O que no contava era que iria ser interceptada por Perseu no meio do caminho.
	Kalimera, Samantha.  Ele estava maravilhoso, usando jeans claro e uma camisa de cambraia de linho numa suave tonalidade de amarelo.
	Kalimera, Perseu  Sam murmurou, no ousando encar-lo.
	Voc dormiu bem?  perguntou-lhe num tom casual, demonstrando ter esquecido completamente a cena que vivenciaram na banheira.
	Sim, dormi  mentiu e ento olhou para o sol que se insinuava atravs da janela de vidro e disfarou:
 Puxa ainda bem que decidi usar os culos, esta claridade  to intensa que chega a me incomodar.
	O que  natural, j que sua pele e seus olhos so muito claros. Mas, no se preocupe com estes de 
talhes, acabar se acostumando com o clima de Serifos, thespinis.
	Tenho certeza de que sim.  "Isto se tiver tempo para me acostumar com o que quer que seja", completou mentalmente, lembrando-se de que seu casamento poderia terminar assim que seu adorado marido se reencontrasse com Sofia Lenidas.
Perseu a encarou fixamente e ento demonstrou que tinha o dom de ler seus pensamentos.
	Estou indo para Naxco, cuidar de alguns negcios urgentes, Kyria Kostopoulos, mas quando chegar quero encontr-la pronta, por que iremos fazer uma visita a Sofia e ao pai dela.
Diante da notcia, o corao deu um salto no peito de Sam, contudo, ela se esforou para manter uma calma, ao menos aparente.
	Claro, farei como quiser.  "Mesmo que isso me faa morrer um pouco por dentro, meu querido", concluiu em pensamento, decidindo que no tinha o direito de influir no destino de seu glorioso Perseu.
Sam escolheu um vestido de seda creme, cujo nico detalhe eram as duas fivelas douradas que prendiam as alas finas e deixavam o colo de pele alva  mostra.
Na verdade, aproveitara a ausncia de Perseu naquela tarde para tomar um pouco de sol e, embora no tivesse sido suficiente para bronze-la, fora o bastante para deix-la rosada e realar a cor dos olhos azuis e das mechas douradas que havia em sua franja.
Observando tal efeito, Sam resolveu que seria melhor no carregar na maquiagem e contentar-se com o delineador e uma camada de batom perolado que combinava com o vestido. O toque final, no entanto, ficou por conta do perfume francs Fleur de Rocailles que fora mais um dos itens que Perseu comprara para seu enxoval.
Ao terminar, finalmente se olhou no espelho e ficou surpresa com o resultado obtido. Era ela, ainda assim no era. Parecia elegante, sofisticada, e, claro, rica, muito rica. Seus cabelos dourados caam em ondas suaves e, por causa do banho de mar, estavam ligeiramente encaracolados nas pontas.
	Samantha? Posso entrar?  soou a voz de bartono aps uma rpida batida na porta que conectava os dois quartos.
Ela prendeu a respirao.
	Si... sim, pode. J estou pronta.
Ento a porta se abriu e o corao de Sam passou a bater descompassado. A sua frente estava o homem mais bonito que j vira em seus vinte e quatro anos.
Perseu nunca lhe parecera mais msculo e sensual do que agora, usando a camisa de seda azul e uma cala de linho branca que se adaptava muito bem ao clima quente da Grcia.
Contudo, se no estava preparada para resistir  beleza morena, estava menos ainda para se submeter  maneira intensa como ele a fitou.
	O que houve? Por que est me olhando assim?  indagou embraada.
	Venha ao meu quarto.
Sam pestanejou, chocada com o convite. Os  lbios  carnudos  se  curvaram  num  sorriso zombeteiro.
Ora, acalme-se, s quero que veja uma coisa. No vou tentar seduzi-la, thespinis.
Sam deu um suspiro de alvio e o acompanhou at o quarto ao lado.
	Olhe isto!  Perseu ordenou, apontando para um quadro de quase dois metros que havia na cabeceira de sua cama.
Claro!, Sam pensou. O retrato de Andrmeda. Como poderia ter se esquecido!, recriminou-se, dando um passo a frente para poder observ-lo melhor.
	Perseu!  gritou, de repente, e, em seguida, procurou refgio no peito msculo, como se no pudesse encarar a verdade de frente.  Esta  a minha me!  revelou, sabendo que no havia a menor possibilidade de estar enganada quanto a identidade da modelo do quadro.
Os braos fortes a envolveram com carinho e Perseu murmurou algumas palavras em grego, antes de dizer:
	Eu j imaginava que deveria haver uma explicao deste gnero, thespinis  confessou ele com voz rouca.  Agora tudo faz sentido, a semelhana com minha Andrmeda e sua reao ao ouvir o nome de Jules Gregory.
Sam sentiu lgrimas quentes escorrerem de seus olhos.
	Nunca vi minha me parecer mais alegre e bonita do que nessa pintura. Meu pai deve ter pintado este quadro antes de t-la abandonado.
	Abandonado!?  Perseu repetiu, como quem espera mais informaes sobre o assunto.
	Sim, Jules Gregory abandonou minha me antes de eu nascer e nunca quis saber da filha que deixou para trs  contou, tentando sufocar um soluo.
	Oh, minha menina, as coisas nem sempre so o que parecem. Talvez devesse procurar Jules e ouvir seus motivos  Perseu sugeriu, acariciando-lhe o rosto com uma delicadeza sem precedente.
	No, isto nunca!  "Ou pelo menos no enquanto eu no me tornar famosa!", completou em pensamento.
 Esquea este assunto, Perseu. Os Lenidas nos esperam, no? - tentou soar prtica e casual mesmo que seu corao estivesse partido em mil pedaos.
	Se no quiser ir, no iremos, minha querida.
	De jeito nenhum! S casou comigo por causa deste momento e eu no ousaria estrag-lo por nada no mundo.
O olhar que Perseu lhe dirigiu deixava claro que no fora essa a nica razo que o levara a se casar com Samantha, porm, ela estava to imersa em sua prpria dor que nem se deu conta das emoes que cruzavam o rosto msculo de seu adorado marido.
A casa dos Lenidas era bonita e, obviamente, rica e ostensiva. Mesmo assim, no chegava nem aos ps da elegncia aconchegante que reinava na Vila Dnae.
Ao chegarem, Samantha e Perseu foram recebidos pelo mordomo e levados diretos para a sala de visitas onde uma linda mulher de curvas voluptuosas e longos cabelos negros j os aguardava.
"Sofia!", Samantha reconheceu no mesmo instante, e, obedecendo a um impulso, olhou furtivamente para o rosto de Perseu que, para seu espanto, no demonstrava qualquer reao.
	Perseu!  exclamou a mulher grega ao v-lo, e dava a impresso de estar genuinamente emocionada. Ento, uma torrente de palavras gregas escapou dos lbios fartos da bela dama de fisionomia helnica.
Sim, Sofia Lenidas era bonita, muito bonita. Aquela constatao s serviu para deixar Sam ainda mais enciumada.
	Por favor, Sofia  Perseu a interrompeu.  Deixe-me apresent-la a minha esposa, Samantha. Ela no fala grego, portanto, peo que nossa conversa seja toda em ingls.
Sofia encarou-o boquiaberta. Era bvio que estava sofrendo ao ser tratada com tanta indiferena.
	Mas, Perseu, eu esperava que pudssemos falar em particular!  protestou, quase que com desespero.
	Lamento, Sofia, estou casado e no existem se gredos entre minha esposa e eu.
Uma pontada de culpa assolou o peito de Samantha. Ser que ela tinha o direito de estar ali, quando os dois precisavam resolver um impasse que durava quase vinte anos?
	Tenho tanta coisa para te dizer  lamentou a outra mulher.  Nem sei por onde comear, meu querido Perseu, mas quero que saiba que sinto muito por ter-lhe causado esta cicatriz. Perdo, mil perdes!  A esta altura, as lgrimas escorriam em profuso pelo rosto moreno de Sofia.
	Eu j te perdoei h muito tempo, minha cara.
Novamente, Samantha se surpreendeu ao v-lo to impassvel diante uma cena que significava a resoluo de todos os conflitos que o assolaram nos ltimos vinte anos.
	Sei que no existe perdo para o que eu fiz  Sofia prosseguiu.  Mas, naquela poca, no tinha escolha. Ou eu o impedia de me tirar desta casa ou teria de v-lo morto diante de meus olhos.
	No seja to melodramtica, Sofia!  Perseu empertigou-se.
	No o culpo por no acreditar em mim. S que, h vinte anos, meu pai te odiava tanto que seria capaz de mandar assassin-lo... O triste era que, na verdade, o dio de papai no era dirigido a voc, mas sim s lembranas que tinha de seu pai, Perseu.
Pela primeira vez, desde que haviam chegado  Vila Lenidas, Samantha notou que Sofia estava conseguindo penetrar na armadura de indiferena que Perseu teimava em usar.
O que meu pai tem a ver com isso?  ele grunhiu entre os dentes.
	Voc nunca soube, mas, na juventude, sua me foi namorada de papai e depois ela o abandonou para se casar com o seu pai, Perseu!
No havia razo para Sofia inventar tal histria e tanto Samantha quanto Perseu acreditaram nela.
	Continue!  Perseu ordenou num tom gutural.
	Papai se casou com minha me, mas ele sempre amou Dnae. Assim, quando o destino a trouxe de volta, ele a quis mais do que  prpria vida. Considerava-a como se fosse um presente dos deuses... Mas havia algo com que no contava: voc, o menino lindo e orgulhoso que o fazia lembrar do homem que tinha lhe roubado seu grande amor.
Perseu respirou fundo e ficou silencioso durante alguns segundos, ento, de repente, sorriu como algum que est aliviado.
	Quando nos apaixonamos  Sofia prosseguiu , papai ficou louco de cime. No podia aceitar um Kostopoulos como genro, portanto, a repulsa que ele sentia no tinha nada a ver com sua condio social, Perseu. Assim, naquela noite em que voc tentou me convencer a fugir para nos casarmos em Atenas, eu no podia acompanh-lo porque sabia que papai, desconfiado, tinha contratado alguns homens que estavam de guarda no porto. Se sassemos juntos, aqueles homens tinham ordens para mat-lo, meu amor.
Samantha ouviu um grito assustado ecoar pela sala e s alguns segundos depois percebeu que o grito sara de sua prpria garganta.
Mas Sofia no se deteve por causa disso.
	Juro que quando peguei o punhal, minha nica inteno era assust-lo para que fosse embora sozinho e assim vivesse. Acabei perdendo o controle da situao e aconteceu a tragdia que destruiu nossas vidas. Perdo, Perseu, perdo. Eu te amo, sempre te amei e sei que vou am-lo pelo resto de minha vida.
Samantha ouviu aquela declarao de amor e sentiu-se desfalecer. Oh, cus, agora faltava pouco para que Perseu sasse de sua vida para sempre. Afinal, no havia mais qualquer empecilho que o afastasse da bela Sofia e, por certo, os dois acabariam se reconciliando e sendo felizes para sempre, enquanto ela teria de regressar a Nova York e viver das lembranas de seu grande amor.
Imersa em sua autopiedade, Sam nem ouviu direito o resto da conversa. A nica coisa que conseguiu entender foi que, durante os ltimos vinte anos, Sofia tinha vivido no interior da Turquia e que s voltara a Serifos para cuidar do pai que estava morrendo.
A certa altura, a moa grega revelou a Perseu que fora o prprio dr. Lenidas quem o tinha mandado chamar, pois se arrependera de tudo que tinha lhe feito e no queria morrer sem poder lhe suplicar que o perdoasse.
Desta forma, pedindo licena a Samantha, Sofia puxou Perseu pelas mos e o carregou at o quarto do velho moribundo.
Os dois ex-amantes s regressaram  sala muito tempo depois, confirmando que a premonio de Sam estivera certa todo o tempo. Tinham se reconciliado e agora Perseu iria pedir o divrcio para poder se casar com Sofia.
Conforme o Mercedes deslizava pela estrada que os levava de volta  Vila Dnae, Sam sentiu o corao apertado e mal tinha coragem de olhar para o rosto bonito de Perseu.
	O dr. Lenidas est to mal assim?  arriscou-se a perguntar, dando voz a sua curiosidade.
	Est. Pelo que Sofia me disse ele no deve ter mais que alguns dias de vida  Perseu contou com um suspiro.  Pobre homem, o cime e a paixo que tinha por minha me acabaram por mat-lo aos poucos. Agora que sei da verdade, sinto como se tivessem tirado um peso enorme de minhas costas. Estou de bem com vida Samantha, definitivamente, estou de bem com vida!  exclamou e um largo sorriso brincou em seus lbios carnudos.
	Fico feliz em saber, Perseu  Sam murmurou, tocando-o gentilmente no brao.  Torci por voc o tempo todo e agora parece que as coisas finalmente vo dar certo em sua vida. Por favor, no deixe que esse nosso casamento de mentira o impea de conseguir o que mais deseja, meu caro.
	O que quer dizer com isso!?  ele perguntou, trespassando-a com os olhos escuros..
Entretanto, Samantha no teve tempo de responder, pois acabavam de chegar  Vila Dnae e Perseu espantou-se ao ver um BMW branco estacionado no ptio da casa.
	Quem ser que est a?  falou mais para si mesmo do que para Sam.
	No est esperando ningum para o jantar?  inquiriu ela, pois na Grcia as famlias costumavam jantar por volta das dez horas da noite.
	No que eu me lembre  Perseu respondeu, fazendo uma careta e estacionando o Mercedes ao lado do BMW do visitante desconhecido.  Venha!  chamou-a, aps descer e abrir a porta para ajudar Sam a fazer o mesmo.
Curiosa, Samantha chegou a esquecer o episdio que acabava de vivenciar na casa dos Lenidas e, conduzida pelo brao de Perseu, entrou no hall da vila onde Ariadne os aguardava.
	Kyria Kostopoulos, tem um senhor aqui que deseja v-la.
	A mim!?  Samantha espantou-se.  Mas no conheo ningum na Grcia!
	Tem certeza de que no se trata de um reprter, Ariadne?  Perseu inquiriu com o cenho franzido.
	Tenho, kyrie. E aquele pintor famoso, que sempre sai no jornal.
Como Sam j soubesse do interesse de Perseu por artes, no se espantou e chegou a imaginar que seria algum oferecendo-se para pintar o retrato da nova sra. Kostopoulos, assim, limitou-se a fazer uma pequena careta antes de seguir at a sala de visitas, acompanhada de perto por Perseu.
O visitante ilustre estava de costas, mas, ao ouvir os passos que se aproximavam, ficou em p e virou-se para encar-los. Ele tinha cabelos grisalhos e olhos azuis.
Samantha entrou em choque ao reconhecer que estava diante da figura que tantas vezes vira estampada nos jornais e revistas de arte. Sim, por mais estranho que pudesse parecer, o homem que estava na sua frente era Jules Gregory, o pai que a rejeitara antes de nascer.
	Sr. Gregory, a que devo a honra de sua visita depois de tantos anos?  Perseu foi o primeiro a se manifestar.
	Desculpe por aparecer em sua casa desta maneira, sr. Kostopoulos  Jules falou com voz entre cortada , mas precisava falar com sua esposa.
	No tenho nada para falar com o senhor!  Samantha explodiu, perdendo o controle de vez. Afinal, eram muitas emoes para uma nica noite.  Eu nem o conheo, como poderamos ter alguma coisa para conversar?
	Tenho certeza de que sabe quem sou, filha. Mas eu, ao contrrio, no sabia de sua existncia at ver esta foto e ler uma reportagem sobre voc num jornal grego  Jules comentou emocionado, em seguida, pegou um jornal e estendeu-lhe para que checasse a foto tirada quando ela e Perseu desembarcavam no porto de Serifos.
Samantha estremeceu. O que Jules queria dizer? Como poderia ser to cnico e alegar que no sabia que tinha uma filha?
	Eu fiquei intrigado com sua semelhana com uma moa que conheci quando morei em Cheyenne e ento resolvi ler a reportagem, ao ver que seu nome era Samantha Telford e que tinha vinte e quatro anos, no tive mais qualquer dvida de que era minha filha. A filha que Melanie no me contou que estava esperando.
Se no fosse pelas mos de Perseu, Samantha teria cado aps ouvir tal revelao.
Com um cuidado extremado, seu marido carregou-a at o sof e beijou-a de leve na testa.
	Deixe-o contar a sua verso da histria, thespinis. Afinal, tem sido uma noite de grande revelaes para ns dois.
Samantha aquiesceu e ento olhou para Jules com grande ateno.
Os olhos azuis, to parecidos com os seus, estavam marejados de lgrimas e, naquele instante, descobriu que seu pai falava a verdade. Ele nunca soubera que tinha uma filha.
	Quer dizer que me reconheceu atravs do jornal?  interpelou-o num fio de voz.
	Sim, foi isto mesmo. Como deve saber, moro na Siclia, mas, Anna, a moa que vive comigo h onze anos, tem mania de comprar jornais de toda a Europa. Ontem, quando estvamos olhando este jornal grego, Anna, que conhece os retratos de Melanie, chamou minha ateno para a foto da jovem sra. Kostopoulos, que estava estampada na primeira pgina. Da por diante voc j sabe o que aconteceu.
	Est insinuando que veio para a Grcia para me conhecer?
	Sim, querida. Eu amei sua me mais do que amava a mim mesmo, mas Melanie era orgulhosa e, depois de uma briga, nunca mais quis me ver. Procurei-a durante anos seguidos, mas nunca a encontrei. Embora tivesse desistido da busca, demorei muito para esquecer meu grane amor. Mas, se soubesse que tivemos uma filha, teria ido at o fim do fundo para busc-la.
Um lgrima, que mesclava dor e satisfao por todos os anos em que estiveram separados, escorreu pelo rosto de Sam e, de repente, ela e Jules estavam abraados. Era uma reconciliao tardia, mas que prometia ser eterna.
	Vim para a Grcia, minha querida menina, porque precisava confirmar que era minha filha  ele soluou, beijando-lhe os cabelos.  Agora no tenho mais a menor dvida.
	Hh...  Perseu pigarreou, sorrindo para os dois com expresso benevolente.  Com licena, vou pedir a Ariadne que coloque mais um lugar  mesa hoje. Ficar para jantar conosco, no  Jules?
	Claro que ele ficar!  Sam exclamou, tocando o rosto do pai com a ponta dos dedos e lembrando-se de todas as vezes que ela o admirara atravs de fotos publicadas pela imprensa.
	Voc tem um marido e tanto!  Jules elogiou, assim que Perseu os deixou sozinha.   evidente que ele ama mais do que a prpria vida.
Samantha esboou um sorriso triste.
	Oh, no, est enganado, papai. Perseu ama outra mulher, algum que ele conheceu em sua adolescncia e com quem se reconciliou h poucas horas.  Baixando os olhos, contou a histria de Perseu e Sofia e tudo o que havia acontecido na visita que fizeram  Vila Lenidas.
Jules escutou-a pensativo.
	Isto no faz sentido, minha filha. Tenho certeza de que ele a ama.  s olhar em seus olhos e ver a maneira como a trata. Por que em lugar de ficar se martirizando, no procura seu marido e lhe pergunta diretamente o que sente a seu respeito?
	No sei se teria coragem de fazer isto  Samantha confessou.
	Pois deveria ter. Afinal, lembre-se de que, se sua me no tivesse sido to orgulhosa, poderamos ter formado uma famlia feliz, minha criana. No haja como Melanie, corra atrs de sua felicidade, minha preciosa.
	Vou pensar a respeito  prometeu Samantha, regozijando-se por descobrir que tinha um pai com quem poderia contar nos momentos mais difceis e rezando para ele estar certo a respeito dos sentimentos de seu maravilhoso Perseu.

CAPITULO VII

O relgio marcava duas e dez da manh. O pai de Samantha havia deixado a Vila Dnae a menos de meia hora, com a promessa de que ele e Anna iriam voar para Nova York, dali a duas semanas, a fim de que Sam pudesse conhecer a mulher que havia conquistado o corao de Jules Gregory.
Perseu tinha ido para a cama muito mais cedo do que ela, entretanto, fora o anfitrio perfeito durante todo o jantar. Com sua sofisticao e charme nato, conversara com Jules sobre suas obras mais famosas e at mesmo chegara a perguntar-lhe sobre seus planos para o futuro.
Sam fazia um comentrio aqui e ali, mas, na maior parte do tempo, limitava-se a ouvir. Afinal, era uma grande alegria que os dois homens que mais amava no mundo pudessem compartilhar suas impresses e ideias sobre a arte e a vida em geral, ao mesmo tempo que demonstravam uma enorme admirao mtua.
Ocasionalmente, lanava um olhar embevecido na direo de Perseu, que esta noite, mais do que nunca, se assemelhava a um magnnimo deus grego. Contudo, para sua infelicidade, a noite terminou quando seu pai anunciou que estava na hora de ir embora, pois teria de pegar o avio bem cedo para regressar  Siclia.
Discreto, Perseu se retirara primeiro, deixando que pai e filha gozassem de privacidade para se despedirem.
Agora, no entanto, quando se encontrava rolando de um lado para outro da enorme cama de casal, Samantha se perguntava se Perseu tambm estaria tendo dificuldade para pegar no sono.
Ser que teria coragem de colocar seu marido contra a parede e exigir que lhe dissesse quais eram seus sentimentos em relao a ela?, estremeceu e, imediatamente, lembrou-se da conversa que tivera com o pai. No achava que era orgulhosa como sua me fora, mas talvez estivesse enganada e, ento, seria preciso muita coragem para confrontar o homem que amava e tentar lutar por sua felicidade.
Perseu e seu pai haviam trilhado caminhos semelhantes, marcados por dentro e por fora pelas mulheres que amavam. Entretanto, Anna, que Jules lhe contara ser uma paisagista, parecia saber exatamente o que queria e se dispusera a lutar pelo amor de Jules durante onze longos anos.
Onze anos... Sam sentiu o corao apertado. Depois daquela noite, sabia que no poderia viver nem onze dias ao lado de Perseu sem poder contar com seu amor, que dir onze anos! Portanto, seria melhor encher-se de coragem e enfrentar seu destino agora, mesmo que para isso fosse necessrio descer ao mais profundo crculo do inferno se ele a rejeitasse.
Com o corao batendo to descompassado que temia que pudesse lhe saltar de dentro do peito, Samantha levantou-se, pegou o robe branco de seda e rumou para a porta que conectava seu quarto ao de Perseu.
Por um instante, hesitou em cham-lo. Ento, aps respirar fundo, bateu levemente na madeira nobre. Mal tinha retirado a mo quando a porta foi aberta.
 Perseu!  exclamou, assustada por ele ter atendido to rpido. Olhando por sobre os ombros largos, viu que a cama larga continuava impecavelmente arrumada. Perseu ficou parado a alguns metros de Sam, estava usando o robe preto, que deveria ter vestido s pressas, pois ainda amarrava o cinto.
	Eu estava esperando por voc  anunciou ele, desta vez com um acentuado sotaque grego.
	Por qu?  Samantha indagou, pressentindo que havia algo errado. Na semiescurido da noite, os olhos azuis procuraram os deles, mas no puderam desvendar grandes segredos. Um silncio perturbador os envolveu.
	Presumi que poderia querer conversar, afinal, no  todo dia que uma filha encontra o pai que nunca viu antes e, em poucas horas, tem de dizer adeus.
Oh, cus, Perseu sempre colocava suas necessidades antes das dele! Ser que isso no era mais do que um simples sinal de afeto?, perguntou-se, sentindo uma ponta de esperana "brotar em seu peito.
	Voc est certo, foi duro v-lo ir embora  admitiu, antes de concluir em pensamento: "Mas ser pior ainda quando eu tiver de me separar de voc para sempre, meu querido!"
	Presumo que Jules tenha lhe pedido que o acompanhasse at a Siclia e agora voc quer minha permisso, certo, Samantha?
Ela foi pega de surpresa pela suposio inesperada.
	Na verdade, eu...
	No posso culpar Jules por isso  Perseu a interrompeu abruptamente. Havia um intensidade naquele timbre de voz que nunca vira antes.  Sei muito bem que, se fosse a filha que eu tivesse acabado de encontrar, iria exigir que viesse comigo.
	Acho que  seu sangue grego falando mais alto do que a razo  Samantha replicou nervosamente.
 Meu pai no  assim to impulsivo, ele sabe que  no sou mais uma garotinha.
Todavia, apesar do esforo, a tentativa de imprimir um pouco de humor  conversa no surtiu o efeito que Sam esperava.
Perseu continuou a fit-la com ar sombrio.
	E, voc no  uma garotinha. Por isso a tomei como esposa.  Ele estava parado no centro do quarto, com as mos no bolso do robe e o olhar fixo no rosto angelical de Sam.  E, no que diz respeito ao mundo a fora, ainda estamos em lua-de-mel. A imprensa no perdoaria se soubesse que me deixou sozinho para viajar com seu pai.
	Imagino que sim  Sam murmurou, franzindo o cenho.
	Claro que todos associariam sua partida com a presena de Sofia e me seguiriam na esperana de descobrir algo escabroso e comprometedor  ponderou Perseu.  Agora, se nos dois viajssemos juntos, a situao seria diferente!  declarou com veemncia.
Sam sentiu o corao bater ainda mais rpido. O que tudo aquilo significava? Ser que seu pai estava com a razo? Seria possvel que a ideia de viajarem juntos para a Siclia fosse uma tentativa desesperada de Perseu, que no queria perd-la!? Se fosse verdade...
Ora, fora justamente para descobrir isto que batera na porta de Perseu, e agora a coragem lhe faltava.
E se Perseu confirmasse que a nica mulher que amava era Sofia?, insistiu uma vozinha vinda de seu inconsciente. Bem, seria um risco que teria de correr. Limpando a garganta, Sam tentou conter seus temores e agir com toda dignidade.
	Temo que esta discusso seja irrelevante Perseu. Afinal, antes que meu pai pudesse me pedir qualquer coisa, eu o fiz prometer que, dentro de duas semanas, ir para Nova York.
Nem mesmo a escurido podia disfarar a palidez que tingiu o semblante moreno.
Sam concluiu que deveria ter dito algo errado, pois, outra vez, seguiu-se uma pausa impregnada de tenso.
Se voc est me pedindo para seu pai morar conosco, no vejo problema nenhum. No, se for isto realmente o que deseja, Samantha.
	Oh,  muita generosidade sua, Perseu, mas creio que Anna, a moa que vive com ele, no aprovaria essa ideia. E meu pai est voltando  Siclia hoje mesmo para pedi-la em casamento. Espero que quando os pombinhos viajarem para Nova York, dentro de duas semanas, possamos lhes dar uma festa de noivado.
Com duas passadas gigantescas, Perseu cobriu o espao que os separava e segurou-a pelos ombros.
	Pare com isto, thespinisl No finja comigo.
As mos viris em seu corpo a fizeram perder a concentrao.
	Mas eu no estou fingindo nada!  protestou indignada.
Ele a chacoalhou pelos ombros.
	Ora, como pode me dizer que no est devastada com a partida de seu pai quando sei que encontr-lo foi a coisa mais importante de sua vida!?  esbravejou.  No se esquea de que vi a dor que se estampou em seu rosto ao descobrir que tinha sido Jules o pintor de minha Andrmeda.
	Eu sei, mas voc no est entendendo, Perseu. Horas atrs eu era uma pessoa diferente, pensava que meu pai tinha me ignorado propositadamente. As revelaes de hoje mudaram tudo em minha vida.
Uma ruga vincou o semblante altivo de Perseu e Samantha esforou-se para tir-la dali.
	Sei que meu pai me ama. Estamos planejando viver bem prximos um do outro para o resto de nossas vidas. Mas no sou mais uma menininha que precisa que o papai a coloque na cama e leia uma historinha antes de dormir. Tenho um marido que cuida de mim  disse a ltima frase com a voz trmula. Deveria ter sido uma confisso de amor, mas no estava certa de ter atingido seu objetivo.
 Em resposta, as mos de Perseu comearam a deslizar pelos ombros delgados. Era mais do que bvio o esforo que ele fazia para se controlar.
	Cada dia que passa voc est representando seu papel com mais perfeio, kyria Kostopoulos. Qualquer um que a ouvisse agora iria acreditar que  uma esposa feliz, deliciada com a possibilidade de ficar com seu marido at o resto de suas vidas.
Os dedos longos mergulharam na pele macia do brao de Sam, mas ela no o repeliu, pois, naquele momento, apreciava qualquer situao que os aproximasse e aumentasse a chance de serem felizes.
	Acha que no sei a verdade?  gritou Perseu, entre os dentes.  Daria sua alma para ter ficado com seu pai.
	Est engando, Perseu. S estou com voc por uma razo...  Ento a voz falhou quando mais precisava dela.
	Essa razo ns dois sabemos qual , no? Voc  uma mulher nobre de esprito que no romperia o acordo que fizemos apenas para no me prejudicar.
	Depois de tudo o que fez por mim eu no romperia mesmo!  admitiu.  Mas no era isso o que voc queria, vender a imagem de um casamento feliz? Conseguiu! A farsa deu resultado e agora pode se casar com Sofia?  bradou descontrolada. Um minuto mais e no seria capaz de conter as lgrimas que lhe ardiam nos olhos.
A resposta de Perseu demorou muito a vir.
	Por mais que voc deseje isto, thespinis, meu casamento com Sofia nunca ir acontecer. Alis, nunca existiu essa possibilidade, a no ser em sua imaginao.
A deliciosa sensao de prazer que se seguiu a essa revelao perdeu um pouco de fora quando ele a soltou e voltou a colocar as mos no bolso do robe.
Sam no queria ouvir o que Perseu ainda tinha a dizer, mas uma compulso mais poderosa do que o bom senso f-la ficar onde estava.
	Por que diz isso? O que mudou?  perguntou num tom de voz quase inaudvel.
	Nada mudou, apenas fui eu quem no lhe disse toda a verdade  atalhou ele, muito srio.  Sofia tem um filho na Turquia, que est apaixonado por uma garota pobre da aldeia em que vivem. Mais uma ironia da vida, no, minha doce Andrmeda?
Enquanto Sam tentava compreender as implicaes de tal revelao, Perseu continuou:
	O rapaz no quer nem pensar em morar na Grcia, e Sofia j me confessou que no pode viver longe do filho.
Uma ideia aterradora cruzou a mente de Sam e ela no conseguiu se conter:
	E... ele  seu filho?  interrogou meio que aos tropees.
	No!  foi a resposta enftica e lacnica.
	Ento, o que est dizendo  que, se quiser ficar junto de Sofia, ter de morar na Turquia?
	Sim  Perseu murmurou.  Mas, uma vez que no quero faz-lo, por razes muito pessoais, no existe qualquer possibilidade de me envolver com Sofia novamente. Agora que j sabe disso, acho que percebe que nosso acordo tambm no faz mais sentido, no, thespinis?  Houve uma pausa aterradora antes de ele acrescentar:  Portanto, no vou mais abusar de seu senso de lealdade. Essa histria de viajarmos juntos para a Siclia foi uma bobagem minha. Voc est livre para fazer qualquer coisa que seu corao desejar...
"Livre para deix-lo!?", Samantha perguntou-se. Oh, cus, eram justamente aquelas as palavras que tanto temia.
Seu corao quase parou de bater. Como sobreviveria longe de Perseu, quando ele era o sol que iluminava sua existncia?, desesperou-se.
Era evidente que Perseu tambm lutava contra seus prprios demnios. Mas Perseu Kostopoulos era um ser mitolgico e venceria aquela batalha, quanto a Samantha, ah, ela era apenas uma mulher perdidamente apaixonada, que fora trazida para Serifos pelo sonho de Cinderela que agora estava se dissipando em meio ao redemoinho da realidade.
	No se preocupe, kyria. Parte de nosso acordo ainda est em p  ele assegurou-lhe, solene.  Vou ajud-la a entrar no mundo dos negcios, quer seja aqui, em Nova York ou na Siclia.
	Siclia!?  A fria a fez gritar.  No quero morar na Siclia e para o inferno com nosso acordo! 
	Mas precisa de algum para proteg-la, Sam! 	Perseu argumentou desolado.  Seu pai  uma tima pe...
	Basta de falar sobre meu pai!  O corpo todo tremia e o bom senso h muito que a abandonara.  Est parecendo que voc no v a hora de se livrar de mim. Mas, se me der meu passaporte e assinar o cheque de dez mil dlares que ganhei pela colagem do edifcio da Kostopoulos Export em Nova York, voltarei amanh mesmo para os Estados Unidos.  s deixar o cheque na escrivaninha do escritrio que irei embora sem perturb-lo. Agora, se me d licena, o dia foi longo demais, quero ir para a cama.
	Eu tambm quero, Sam... mas na companhia de minha esposa  declarou Perseu num tom rouco.
Samantha sentiu um novo frisson abalar seu corpo jovem.
	Ah, no venha com bobagens, Perseu! Acabou de me liberar de nosso acordo e deixou claro que no preciso mais ser a substituta de Sofia. Alm do qu, o acordo foi que seria sua esposa apenas durante o dia, lembra?
	Eu me lembro  sussurrou levemente melanclico. 	E estou vivendo num inferno por causa disso, Sam.
Ela o fitou aturdida. Que, diabos, Perseu estava querendo dizer desta vez?
	Lamento, meu caro, mas seu inferno foi provocado por Sofia, a mulher a quem tanto amou.
	E verdade, amei Sofia como um adolescente ama a primeira mulher de sua vida. Mas isto  passado, thespinis. O amor  como um bichinho delicado que precisa ser alimentado todos os dias para sobreviver, do contrrio, perde-se no tempo e em nossas lembranas.
Samantha encarou-o incerta. Seria possvel que Perseu estivesse tentando dizer que a amava? No, seria bom demais para ser verdade! No deveria se iludir.
	Amei Sofia, agora no amo mais  ele esclareceu suas dvidas com todas as letras.
	Sofia ainda "o ama  Sam sussurrou, sentindo que a esperana voltava a iluminar-lhe o corao.
	No, minha doce esposa, Sofia ama as recordaes de seu primeiro amor  corrigiu-a Perseu.  Como eu, Sofia precisava colocar um ponto final no passado. Agora, ao voltar  Turquia, ela poder recomear a vida e ser feliz sem o fantasma da culpa que sentia por ter me causado esta cicatriz. Sofia  uma mulher bonita e ainda encontrar algum que a faa feliz.
	Como pode dizer isto com tanta calma, quando passou a maior parte de sua vida adulta procurando por Sofia!?  A voz em falsete de Sam ecoou pelo quarto luxuoso como se fosse o grito de socorro de algum per dido no mundo e nos fatos que se apresentavam.
	Simples, o que eu buscava eram respostas para o que tinha acontecido conosco, e no uma oportunidade de reatar o romance da adolescncia. No fundo, at desconfiava que o gesto desesperado de Sofia tivesse a ver com a intransigncia de seu pai, pois ele me odiava com todas as suas foras, porm, precisava confirmar isto. E difcil viver baseado em suposies.
	Que coisa mais srdida, um pai impedir a filha de ser feliz por causa do dio que traz dentro de si!  atalhou Samantha, tocada pelo drama de um passado que Perseu j dera por encerrado.  Foi por isso que voc ficou to zangado quando no conseguiu encontrar o nmero de telefone?  inquiriu, franzindo o cenho.
	Sim, mesmo tendo contratado detetives de renome, nunca consegui saber para onde o dr. Lenidas tinha mandado Sofia. Quando fui informado de que ela procurava por mim, tive a certeza de que era minha grande oportunidade de enterrar o passado e recomear sem rancores.
Sam fechou os olhos, levemente embaraada.
	E pensar que eu disse a voc que minha nota final era mais importante do que o nmero daquele telefone!  As emoes que a dominavam eram to caticas que precisou de algum tempo para se recompor e fazer a pergunta que a afligia:  Mas, se era assim, por que insistiu em atender meus trs desejos e, ainda por cima, se casar comigo?
Perseu segurou-lhe o rosto delicado entre as mos e os olhos escuros a fizeram prisioneira de uma verdade irrefutvel: a de que o amava mais do que a prpria vida.
	Quer mesmo saber o por qu, minha doce e adorada esposa?
	Perseu, por favor, no me esconda nada.  claro que desejo saber a verdade! Basta de mentiras entre ns!
Por uma frao de segundo, Perseu ficou rgido, depois, dando um longo suspiro, ele profetizou:
	Ento, thespinis, seja feita a sua vontade.  Mal terminara de falar, pegou-a no colo e carregou-a at a enorme cama de casal que havia no centro do aposento.
Samantha no sabia dizer se estava sonhando ou vivendo o instante mais precioso de sua vida.
	Voc quer a verdade, meu amor, e eu tambm... Diga-me por que fez aquele acordo com um homem que julgava ser a encarnao do demnio e que ainda por cima tinha uma horrvel cicatriz que o tornava mais ameaador?
	Eu adoro sua cicatriz  ela respondeu e, num impulso, beijou o lado direito do rosto bonito do marido.
 Tambm me senti sensibilizada por sua histria. Acho que, de alguma forma, queria confort-lo pelas marcas que Sofia deixara em seu corpo e alma.
Delicadamente, Perseu a segurou pelo queixo e trouxe o rosto oval para bem junto do dele. Seus olhos se encontraram e foi como se tivessem sintonizado o nico canal que lhes possibilitava a mais completa comunicao, aquela que identificava as almas apaixonadas e as preparava para vivenciar tal sentimento.
	Tambm me sensibilizei ao v-la to bela e solitria naquele apartamento pequenino  Perseu confessou.  De repente, mal a conhecia e queria proteg-la de todas as agruras do mundo. Mas isso e o que o voc acabou de dizer no explica o que a levou a se casar comigo, Sam.
Aquela altura, as pernas longas e sensuais haviam se enroscado nas dela e, aproveitando que o robe branco de seda havia cado, Perseu beijava-lhe um ponto delicado entre os ombros e o pescoo.
	Certamente voc sabe que aceitei sua proposta porque j te amava  Samantha confessou num fio de voz.  O amor foi meu nico motivo, Perseu. Desde o primeiro momento que te vi soube que era o homem que queria para meu marido. Quando fizemos nosso juramento de fidelidade diante do padre, meu corao batia to descompassado que mal podia respirar. Naquele instante, tudo o que eu queria era que o casamento durasse para sempre e que pudesse passar minha noite de npcias em seus braos, como toda noiva faz.
	Pois saiba que eu me sentia da mesma maneira, Sam, meu amor, meu doce amor  Perseu sussurrou, beijando-a levemente nos lbios.  Ao v-la entrar em meu escritrio, com aquele tnis molhado fazendo um barulho estranho de gua, reconheci que voc era minha  Andrmeda,   uma  Andrmeda  moderna,   de jeans e tnis, mas, ainda assim, a mulher, ou melhor, a divindade que eu deveria salvar do mundo e tom-la s para mim.
Sam sorriu, sentindo-se vibrar de tanta felicidade.
	Confesso que entrei em choque ao reconhecer que era to parecida com o retrato que tenho em meu quarto e, sem querer, j te imaginei usando um difano traje de ninfa azul-turquesa, da exata cor de seus olhos, e abrindo os braos para me receber em um maravilhosa noite de amor. Foi naquele momento que soube que estava irremediavelmente apaixonado por voc.
Sabe disso, no, Sam?
	Meu pai foi quem me abriu os olhos para a verdade, Perseu  contou-lhe emocionada. - At ento, estava to cega que jamais tinha me ocorrido que meu amor pudesse ser correspondido.
	Oh, graas aos cus, Jules Gregory  um homem inteligente!
	Concordo  Sam sorriu e acariciou os lbios carnudos com a ponta dos dedos.  Meu pai sugeriu que, j que eu te amava tanto, deveria procur-lo e perguntar quais eram seus verdadeiros sentimentos a meu respeito.
Perseu a fitou com ternura.
	Isto explica o fato de voc ter vindo me procurar esta noite  concluiu, bem-humorado.
Sim, querido, vim para saber se me ama  revelou, prendendo a respirao, antes de acrescentar:  Porque eu te amo mais do que tudo na vida, Perseu. Um leve gemido escapou dos lbios generosos, antes de ele mergulhar o rosto na cascata de cabelos dourados que se espalhava sobre o travesseiro.
	Eu tambm te amo, Samantha Telford. Alis, desde o primeiro instante que a vi, voc se tornou uma obsesso para mim. Precisava t-la, senti-la, cheir-la a todo momento. Acha que pode lidar com isso, minha querida? Com a obsesso apaixonada de um marido que colocou o corao a seus ps? Nem pode imaginar o quanto desejei incluir uma clusula em nosso acordo nupcial que a obrigasse a cumprir todos os deveres conjugais!
Tais palavras  deixaram to feliz, que tudo que ela conseguiu fazer foi abra-lo apaixonadamente.
	E por que no o fez? Aquela noite, na banheira, quando comeamos a fazer amor e depois paramos, eu quase morri ao ter de afast-lo de mim
	Eu tambm, mas aceitei parar porque no queria que me odiasse. Alm do mais, meu amor exigia que, se voc viesse a mim, teria de ser de livre e espontnea vontade, nada forado.
	Ah, Perseu, no pode imaginar o quanto eu sempre quis partilhar essa cama com voc. Agora que estou aqui por vontade prpria, faa amor comigo, meu que rido!  suplicou com voz impregnada de desejo.
	gape mou  ele a puxou para junto de si com sofreguido. Vou fazer amor com voc hoje e sempre, minha adorada. Prometo que de agora em diante nossa felicidade ser completa...
E antes que Samantha pudesse se dar conta do que tinha acontecido, seus corpos j estavam nus, procurando um pelo outro com a nsia de todos os seres que so presenteados pelos deuses com a ddiva do amor eterno.
Sim, ali estavam eles, na Grcia milenar, um homem e uma mulher que haviam percorrido um longo caminho para descobrirem que, em pleno sculo vinte, o amor ainda  o nico sentimento que transcende o mito da paixo carnal, pois eleva o ser humano at o mais alto do cu; ao verdadeiro paraso onde a felicidade  uma constante e o prazer apenas uma consequncia natural.

FIM



